Ele era do tipo sorridente e que fazia amigos com facilidade. Tipo aquele cara que você olha e já sente vontade de contar a sua vida toda. Ela se dizia extrovertida, mas dificilmente puxava assunto no elevador com alguma pessoa estranha.

Ele gostava de ir a um restaurante italiano do shopping comer espaguete à peperonata, sua massa favorita. Cumprimentava alegremente o gerente, o sommelier e o garçom, sem esquecer nunca do chef. Ela era adepta das saladas, carnes brancas e sucos naturais sem açúcar. Cumprimentava cordialmente os funcionários da sua saladaria escolhida, sentava, pedia e comia sem pressa.

Estavam na fila para pagar o estacionamento. Ela numa, ele noutra. Os olhos dela se encontram com o dele. Ele sorri. Ela faz pouco caso e “boquinha de não gostou”. Ela olha o celular, disfarça e percebe que ele continua olhando. Dessa vez ela tem a impressão que ele quer falar algo, pedir seu telefone ou sei lá. Ignora solenemente aquele cara que insiste em fitar seus olhos. Que mundo é esse que uma mulher não pode sair sozinha sem ser paquerada?, pensa ela.

Eles pagam. Ela se dirige para o estacionamento. Ele vai na mesma direção. Chama algumas vezes: “Moça, moça”. Ela com o telefone desligado finge que está em uma chamada e tenta despistar aquele homem chato que quer cortejá-la.

Ele desiste de abordá-la e deixa que ela vá embora. Ela, mais na frente, encontra aquele cara da academia por quem sempre teve uma quedinha e lhe abre um imenso sorriso. Ele sorri sem graça. Um sorriso amarelo que contrasta com o verde daquela folha de alface nos dentes dela.