Fechem a Porta

08 de Junho de 2014 Elias Lima Crônicas 1451

Por favor,
Fechem a porta!

Deixe-me viver esta morte que me quebra, me parte, me rasga, me desencanta e me bate violentamente.

Então, por favor!
Fechem a porta.

Tudo escureceu de repente dentro de mim.
Eu não quero existir.
Não posso cumprir minhas obrigações agora.
Deixem-me em paz.
Deixem-me aqui,
Sozinho em minha inação,
Não existindo ou morrendo por acúmulo de todas as dores de existir.

Apaguem todas as luzes.
Os demônios me querem assim, no escuro.
Os anjos se afastaram 
Estou à mercê desses fantasmas que insistem em me derrubar
Fazendo-me cair num abismo sem fundo sem parar.

Estou sem luz
Deus fugiu e levou todos os anjos para longe de mim.

A escuridão toma cada vez mais conta do meu espírito
A morte acena sorrindo
Se aconchega e me abraça em seu colo frio, cheios de espinhos.
Eu agradeço sua visita,
E deixo ela me levar para longe de toda insanidade que acelera o mundo
Que aceleram nossos passos
Nos roubando tempo, saúde e vida.
Enfim, nos matando todos os dias.

A insanidade anda solta
Mas os loucos estão presos
A barbárie é praticada à luz do dia
Mas tudo por uma causa:
O dinheiro.

Aplaudimos de pé as mortes, as torturas, os estupros de crianças e mulheres
Amamos a desigualdade entre raças, o preconceito entre orientação sexual
Somos viciados em padrões, estigmas e jugos sem fundamentos
Somos fissurados na aniquilação do outro.

Abraçamos as injustiças feitas pela Justiça
Adoramos a diferença para nos envaidecer através de algum privilégio social.
Estamos à beira do colapso e do precipício,
Mas estamos sorrindo fazendo “selfie”
Bebendo e dirigindo.
A vida humana é só mais um número.
E números são números.
Não têm vida nem histórias, muito menos sentimentos.

A existência se tornou uma doença.
E adoecendo vamos nos drogando
Tornando-nos uns zumbis
E robôs programados para obedecer,
Mandar e executar a Ordem do Caos.

Então peço que me deixem sozinho
A minha morte é silenciosa
E nela, eu sobrevivo
É na vida que eu morro.

Eu estou seguro nos braços dela
Ela me dói, me joga ao chão
Me faz rastejar em meu desespero
Mas me abraça
O que a vida não faz.

Daqui uns anos eu ressuscito
E quando acordar deste sono profundo
Acredito que tudo já estará perdido e morto
Sem vida, sem esperança, sem o famoso ‘sentido’ que sempre buscamos.

Mas se eu encontrar ou me esbarrar com alguma vida humana
Eu irei vagar como um andarilho sem alma
Sombrio e sem destino neste fim que eu almejei.

Fechem as janelas!
Não quero que nenhuma luz invada minha alma em agonia e tortura
Quero morrer por amor a tudo que sonho e que busco incansavelmente sem temer
Enfrentando o ódio, a violência, o discurso bem feito para nos aniquilar
Enfrentando essa estrutura de poder que só nos faz escravos de um sistema cruel desde o nascimento até a aposentadoria injusta.

Muitos adoram me ver caindo, morrendo
Sentindo dor, me segurando em muros para não ser derrotado
Mas eu insisto enquanto puder e tiver forças.
Insisto em vencer minha dor.
Minha morte não pode me paralisar
Senão eu morro.

Então fechem as portas por favor!
Tranque-as e levem as chaves!
Deixe-me cair lentamente em meu abismo cheios de ideais humanitários
Deixe-me sofrer por aquilo que não pude escolher
Deixem-me pagar o preço por ser livre para rasgar as cortinas do Grande Teatro Opressor do Lobo.

E depois do luto,
Talvez eu encontre a minha vontade de viver outra vez
Talvez encontre alguma energia em mim ainda desconhecida ou alguma força oculta para enfrentar mais um dia cheio de sol escuro e de chuvas lindas.

A morte existencial é a pior
É o pior preço que se pode pagar em vida
E dela, já sou amiga
Contra ela, nada e ninguém pode.

Então, me deixem com ela
Ela está me ensinando a como viver melhor
A como sobreviver no eterno caos que é a vida
No eterno conflito que é viver para fazer o bem
Nesta Terra perdida cheio de seres perdidos
Desde que o homem inventou a propriedade privada
Até plantar a semente do capitalismo.

E assim eu vou vivendo
Sofrendo o que posso
Suportando o que devo e o que não consigo
Por heroísmo ou romantismo, eu já nem sei
Só sei que viver é coisa de teimoso.
E este sempre foi o meu defeito.


Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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