Lítio

08 de Junho de 2014 Elias Lima Crônicas 1824

Lítio,
Hoje eu me entregarei aos seus encantos
De você eu ouvi tantas promessas
Então espero que você traga de volta a minha vida
Que durante o dia tiraram-me todas as esperanças.

Lítio,
Eu quero a sua paz e alívio drogante
Porque hoje eu entreguei minha espada
E os meus braços estão cheios de marcas
O meu peito sangra de tristeza e decepção
E o meu espírito se encontra em pedaços.

Lítio,
Meus dias são tão vazios
Meus sonhos são tão sombrios
Eu não consigo me encontrar nesse abismo de dores órfãs
Neste castigo intenso e sufocante que é acreditar no que é lindo.

Minha alma ainda busca alguma luz
Alguma resposta ou algum sentido
Para tudo isso que inevitavelmente sou condicionado a viver
Para tudo isso que diariamente sinto.

Lítio,
Eu não quero esquecer como é acordar e perceber o brilho e a beleza do sol
Mas em minha mente tudo parece desaparecer
Constantemente vejo todos os meus anjos caindo
Em minha frente, derrotados, sangrando
E eu estou inerte
E eu nada posso fazer.

Lítio,
Traga a paz ou o descanso escasso
Um lago escuro e profundo para que eu possa esquecer
De todas as dores do mundo
De todas as dores de se viver.

E lítio,
Não me roube a lembrança ou a esperança
De que um dia eu poderei encontrar a minha esperança perdida de viver
Que lentamente e dolorosamente foi-me tirada ao amadurecer
Neste caos externo que esmaga o meu mundo interno
Neste eterno teatro que nos é vendido
Para que possamos servir de mão-de-obra para muitos carniceiros.

Lítio,
Um dia eu acreditei em tudo
E cometi um dos meus piores castigos:
O de me odiar por querer viver.

Ouvi todo tipo de discurso de ódio sobre mim
Tentando me calar, para me enfraquecer
Me latrocinar com ilusões de um paraíso vendido
Para enriquecer demônios terrestres que pregam o ódio através do nome daquele que da morte nos salvou e nos libertou da escuridão vigente que se prolifera até hoje através de seu nome
Adestrando ovelhas fracas e cegas de dor, que sem direção, vivem mais um caminho de terror.

Lítio,
Pode me amar?
Me abraçar enquanto durmo?
Por toda essa vida eu estive tão sozinho
Abandonado por quem devia me amar
Eu segui chorando em meus sorrisos.
Então, me abrace e me diga que tudo amanhã fará sentido
E que eu ficarei bem por muito tempo sem você comigo.

À noite,
Tudo que vivi e que minha frágil mente não pôde suportar
Vem sombrear meus pensamentos carregados de dores intensas e de medos tão reais
Que já não adormeço e nem encontro a minha preciosa e salvadora paz
E tudo que posso fazer é escrever
Para enfim, tentar espantar todos estes fantasmas
Que se aproximam para dar vida as minhas mortais lembranças
Na tentativa incessante de me adoecer
Roubando-me a sanidade
Fazendo-me desaparecer de mim mesmo
Dos meus sonhos
Castrando-me a esperança de um dia me encontrar com a esperança da beleza de viver.

Drogo-me de você,
Pois aquele garoto que foi rejeitado pelos pais ainda quer viver
Mas o fardo é pesado demais.
Então eu apanho mais alguns comprimidos
Para que minha inconsciência não venha me derrubar
Esmorecendo-me até enlouquecer.

Afinal,
Toda a minha vida foi uma luta contra a minha inconsciência
E os desejos cruéis do mundo em me aniquilar
Para dar continuidade nesse modo desumano de viver.
Aprisionados em suas vaidades, todos estão amarrados em um poste
Com suas bocas lacradas de covardia e perversão
Onde a civilidade acaba onde começa ao poder
E assim continuam a perpetuar sua espécie famintas de sangue
De dor e tortura,
Famintas para cristalizar o sofrimento de quem não tem o que comer.

Tudo em nome do nosso mártir que morreu para que pudéssemos viver.

A Terra é uma floresta cheia de animais selvagens e covardes
E mesmo quando se está caído, há abutres sugando seu sangue
A fim de dar continuidade a essa heteronormatividade
Que só nos castram a liberdade de existir
De sermos livres e viver conforme somos realmente.

Todos querem devorar sua carne e beber de seu sangue.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

E sorrindo à noite,
Todos se reúnem e brindam os números de mortes diárias
Com champanhe e caviar da tanatopolítica do Estado
Com alegria e orgulho de controlar o pensamento crítico livre
Fazendo de milhares:
Meras vidas a se apagar quando sua mão-de-obra não mais servir ou de nada prestar.

Então lítio,
Diga-me que há algo a se esperar amanhã
Cante-me uma canção de ninar
Enquanto eu tento encontrar o meu lugar neste paraíso queimado por Igrejas, soldados do Estado e pela vaidade e soberba da elite que nesse curto tempo que é a vida, só conseguem amar o Poder.
E amanhã, quem sabe
Eu estarei curado de toda essa noite, que foi noite durante todo o dia
Quem sabe, lítio
Você me droga todos os dias
E assim, fraco, tentando me fortalecer
Eu encontre alguma saída neste caos
Que ameaça desabar em nossas mentes diariamente afim de nos dizer:
Todos vocês estão iludidos.
A vida se foi há muito tempo.
O que restou aqui são ilusões para se viver.
Plástica, futebol, academia, sexo, religião, moda e publicidade.
Todas elas fazem de nossas dores, coisas supérfluas. Afinal, sofrer pra quê?
Compre um celular novo! Vá viajar! Vá viver!
E não temos tempo.
Fazendo-nos paralisar nossos questionamentos, nossa capacidade de qualificar os nossos pensamentos. Para que assim, possamos viver: obedecendo.
A felicidade é uma mentira vendida para enriquecer quem está no poder.
A infelicidade é o alvo da riqueza.
E você: o fomentador de toda essa tristeza.

Me drogando,
Amanhã espero não me lembrar de tudo isso.


Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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