UM ABALO SÍSMICO

14 de Agosto de 2011 Abreu Crônicas 897

O Gonçalo, a me levar de imediato a Russo, o Renato, visualmente, claro, vem se aprofundando dentro de mim, de tal maneira, que depois de conhecer um pouco de seu estranho mundo, a todos vocês, repasso, nobres literatos.

E quem somos nós, senão pessoas comuns que buscam ampliar os valores, equivalendo-se aos melhores e maiores? E lá vem ele com O Senhor Valéry. O Senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos. Ele explicava: “Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo.” E nessa coisa de sabermos mais e falarmos daquilo que muitos desconhecem, recorremos continuamente a todo tipo de artifícios, o que consegue muito profundamente o Senhor Henri. O Senhor Henri é um falador. Tem dois grandes amores: o absinto e as enciclopédias: “... É verdade que se um homem misturar absinto com a realidade fica com uma realidade melhor... mas também é certo que se um homem misturar absinto com a realidade fica com um absinto pior... muito cedo tomei as opções essenciais que há a tomar na vida – disse o senhor Henri... nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto.”

Entenderam? Captaram? Não? Continuemos: e nessa contínua busca pelo melhor, depois de já aprofundados, o que fazemos? Ele nos apresenta o Senhor Brecht. O Senhor Brecht é um contador de histórias. Senta-se numa sala praticamente vazia e vai contando pequenas histórias entre o absurdo e o humor negro. A sala vai enchendo aos poucos, o que lhe trará no final um novo problema: o público fecha a porta de saída e o Senhor Brecht fica assim encurralado com o seu próprio sucesso.

E há ainda muitos outros senhores em seu bairro. Cada um merecedor de um livro a parte. Todos a buscarem na sua lucidez, o limite a não descambar na própria loucura. E a enfatizar essa lógica, vamos conhecer o Senhor Calvino. O Senhor Calvino é uma figura muito interessante que gosta de dar longos passeios e coloca constantemente desafios existenciais a si próprio, tais como transportar pelo bairro, uma barra metálica paralela ao solo ou levar 10 kg de terra de um local para outro, utilizando uma colher de chá – para treinar a paciência. Se ligue: “Do alto de mais de trinta andares, alguém atira da janela abaixo os sapatos de Calvino e a sua gravata (quem?). Calvino não tem tempo para pensar, está atrasado, atira-se também da janela, como que em perseguição. Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessários para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável.”

Haja fôlego! Como se vê, o seu bairro é de uma originalidade impressionante. E nem bem saímos do Senhor Calvino e lá vem o Senhor Klaus Klump: “Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é a outra forma de exercitar a verdade.”

Quantas reflexões a serem recolhidas em cada livro. Autor de obra caracterizada não somente pela exuberância criativa, mas também por rigorosos jogos de lógica que misturam poesia e filosofia sem nunca deixar de divertir o leitor, Gonçalo M. Tavares revela em uma entrevista alguns de seus enigmas: livros, para ele, têm principalmente a missão de aumentar a lucidez. Em “Aprender a rezar na Era da Técnica”, mantém o mesmo olhar sombrio sobre a condição humana: “O que vês quando olhas para onde todos olham?”. Ele traça um retrato da esquizofrenia como há muito tempo não se via na literatura.

Nascido em Angola, então uma conflituosa colônia Portuguesa, no ano de 1970, ele diz: "Escrevo para responder à estranheza de estar vivo". E em seu novo livro “Jerusalém”, não é diferente. Em uma narrativa bem tramada, sempre oscilando entre o passado e o presente, o leitor é apresentado a Theodor e Mylia Busbeck. Ele, médico, faz pesquisas na área da saúde mental. Em dado momento, Mylia olha-se ao espelho: “Estou viva e já dei um passo mau. Estar doente é ter dado um passo mau, um passo diabólico." É dessa maneira que vocês vão conhecer esse premiado escritor que José Saramago, em discurso quando da entrega de merecidos prêmios, disse: “’Jerusalém’ é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!” E para Joca Terron: "Um abalo sísmico no panorama da literatura portuguesa atual.”

Ah! E para não deixar barato, um de seus instigantes e reflexivos poemas:



A Grande Inteligência é Sobreviver



A grande Inteligência é sobreviver.

As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;

SIM, a ciência.

Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,

porque a artesanal tartaruga,

a espontânea TARTARUGA,

permanece sobre a terra mais anos que o homem.

Portanto,

como a grande inteligência é sobreviver,

a tartaruga é Filósofa e Laboratório,

e o Homem que já foi Rei da criação

não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,

um lavagante pedante;

um animal de cabeça dura. Ponto.

Gonçalo M. Tavares

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