Um dia qualquer, nublado ou com sol, ou até em noite sem luar, bem lá para frente, espero, não mais estarei aqui para escrever ou me inteirar das novidades que aparecem continuamente a desconcertar o mundo. Acho que é isso a coisa mais chata em morrer. Nunca me preocupei com céu, inferno, purgatório, reencarnação ou coisas tais. Sempre direcionei meu pensamento para a solidez da vida terrena. E inteirando-me das dificuldades do viver em leituras contínuas sobre tempos passados, elegi como a melhor, higiênica e mais criativa invenção do início da vida até meados do século passado, o tal do vaso sanitário. Isso mesmo! Nem carro, trem, barco ou avião, mas o simplório vaso sanitário dotado de um simples cordão de nylon que acionado, leva em segundos, varrido pela água, os dejetos esgoto abaixo. E é bom lembrar que até hoje em alguns países do terceiro mundo e até aqui em nosso louvado Brasil, principalmente nos grotões do norte e nordeste, esse utensílio é ainda algo inacessível para muitos.

Na minha infância, quando ainda me fascinava o pesado e mal-ajambrado televisor a cores, poderia até imaginá-lo maior e mais aprumado, mas nunca com essa pouca espessura e com tela tão plana, quase um cinema dentro de casa. E depois que levaram ao pé da letra que nesse mundo nada se cria e tudo se transforma e pegaram a sobra do petróleo e impactaram o planeta com os plásticos e seus derivados a reduzirem custo e peso e isolarem a oxidação do ferro e criarem um mundão de coisas, pensei: “nada mais me assombra!”. Vim nesses últimos trinta e cinco anos incorporando tudo que foi aparecendo como se eu fosse informado com antecedência e tivesse acatado, ou até mesmo imaginado e até indicado para a facilidade do cotidiano. E assim fui me fazendo de atualizando e antenado, a incorporar com a maior facilidade todas as invenções e novidades que foram se apresentando no decorrer dos anos, o que para vocês, já é a coisa mais banal.

E eu, já acostumado com tanta novidade a se apresentar e a me perder em nunca conseguir eleger qual a melhor e mais criativa invenção de meados do século passado até então, eis que algo vem novamente a me assombrar. Quer dizer, um nano assombro. Amigos letrados, já imaginaram um simples spray a criar uma barreira altamente flexível, que repele água, sujeiras e bactérias, podendo ser utilizado para todos os fins? Pois é. A combinação de dióxido de silício – o mineral mais abundante na crosta da terra – extraído de areia de quartzo com moléculas de água ou etanol está sendo lançado na Europa, em forma de spray e promete aposentar os produtos de limpeza convencionais. Não se assombraram? Revolucionário pela sua praticidade e sem qualquer risco adicional à saúde, de início já vem martelando a cabeça dos executivos de muitas indústrias do planeta, a sentirem a ameaça de perto, pois ele é quase inerte e não provoca efeitos nocivos sobre o meio ambiente, ao contrário de muitos produtos de limpeza industriais. A fácil aplicação do spray, a longevidade dos resultados e o trato amigável ao meio ambiente deixaram a indústria em polvorosa.

Pois amigos, este produto já existe, não é tóxico e expele uma espécie de vidro líquido (vidro líquido!), invisível ao olho nu e inquebrável. O spray é uma das maiores atrações atuais da nanotecnologia. A camada de vidro líquido que produz tem entre 15 e 30 moléculas de espessura – é, portanto, 500 vezes mais fino do que o cabelo humano. Na nanoescala – alguns poucos milionésimos de um milímetro de espessura –, o vidro líquido transforma-se em uma barreira invisível altamente flexível que repele água, sujeira e bactérias, permitindo que as superfícies sejam lavadas rapidamente com água pura. A camada também protege o local do calor, de ácidos ou mesmo da radiação ultravioleta. Estamos falando de limpeza de utensílios domésticos, eletro-eletrônicos, ônibus, hospitais, aviões e muito mais, e até a proteção de plantações contra fungos e bactérias. Ou seja, nano na composição, mas com um quê de assombração.