Lendo as Crônicas do Espírito Santo, do Braga, comecei a pensar em como a literatura nos permite conhecer a natureza do ser humano. Quando falo de literatura, estou falando de crônicas, é claro (um gênero menor?), e mais precisamente das Crônicas do Espírito Santo, este livro magnífico que me acompanha já por algumas noites.

Pois as minhas, caro leitor, nem tão líricas, graciosas ou bem construídas como as dos mestres Braga, Veríssimo, Prata, Pratinha e Ximenes, lhe permitem conhecer um pouco mais do pensamento, da vida cotidiana, da visão às vezes um tanto turva, de um simples cronista deste Vale.

Normalmente escrevo sobre pequenos fatos cotidianos que me despertam a verve. Como na praia da Almada, aquele cidadão solitário, com seu Marlboro, carteira e isqueiro. Eu não o inventei. Ele estava lá. Solitário como uma ilha. A menina e o avô, num passeio bucólico pela praça Santa Teresinha. A teoria da viúva (esta sim, inventada). O meu amigo Marcão, que se rendeu à modernidade. Histórias reais ou simplesmente modos de pensar, de ver o mundo. Como se fosse uma fotografia. Sim. A crônica não deixa de ser uma fotografia. Um instantâneo. Meu arquivo de recortes nada mais é que meu álbum de fotografias.

Se você me acompanha, sabe que pouco falo de política. Há pessoas mais preparadas neste país. O Fernando Rodrigues da Folha, por exemplo. A Eliane Castanhêde. A Dora Kramer, colunas que regularmente acompanho. Mesmo porque faço da crônica um momento de relax pra você, meu querido, em que o lirismo ou o humor tomam conta do pedaço.

Mas há graça também na política, sejamos honestos. Se bem que às vezes parece graça, mas no fundo é tristeza. A política partidária, por exemplo. Ela se sobrepõe aos verdadeiros interesses das pessoas. Veja só: não se aprova um projeto porque ele é bom, mas porque ele é desse ou daquele partido. Não se continua uma obra ou determinada política pública, ainda que boa para as pessoas, simplesmente porque ela foi ideia do antecessor. Inaugura-se um posto médico mal acabado às vésperas da eleição.

As CPIs. Elas não são instrumentos sérios de investigação, mas, às vésperas da eleição, de oportunidade política para esvaziar esse ou aquele partido ou candidatura. E não adianta dizer isso agora. Sempre foi assim. Lembro-me que quando o PT era oposição, se alguém do governo espirrasse, já tinha deputado pedindo abertura de CPI. Quantas vezes não vi o Mercadante na televisão, com volumes de papéis debaixo do braço, dizendo, com ar professoral, que o Brasil exigia a instalação imediata de uma CPI? Por outro lado, o governo fazia de tudo para impedir. Pois os partidos não mudaram de lado? E a coisa não continua do mesmo jeito? Hoje, o PT hoje foge de CPI como o diabo foge da cruz. E a oposição, que foi governo tempos atrás, quer CPI a todo custo.

É triste. Depois não sabem por que o povo está descontente, por que vota em branco, anula ou não vai votar. Não sou político, nem mesmo expert no assunto. Mas pra mim está claro que esse sistema não funciona mais. Quando falo sistema estou dizendo acesso a cargos via partidos. É uma discussão que precisaria ser enfrentada.

Talvez minha visão de política esteja um tanto turva. Talvez Fernando, Dora e Eliane me mandem de volta às crônicas, onde é o meu lugar.