Explicações

27 de Agosto de 2011 Fernanda com F Ensaios 1005

Deixei um pouco de escrever, para que não se torne tudo continuidade. Não haja historinhas, começo, meio e fim. O bom de fazer isso é poder repensar tudo o que se redigiu até então. Anseios, medos, letras minúsculas no lugar errado, ponto final no lugar de interrogação.

Porque escrevendo no computador, o Senhor Word corrige tudo. Rasuras não são mais necessárias. Errado. Rasuras rasuram a vida e a falta delas ainda mais. Querer apagar o que se tentou fazer e se achou errado é mais errado que errar e deixar errado.

Impulso.

Quando o lápis traça o papel, torna-se vida. Porque sofre tropeços e êxitos. O simples esquecer de palavras no meio do texto, que só serão lembradas depois, deixam quem vai ler na espera; quem vai escrever conflita. Ia tudo fugir do pensar.

Concentração.

Ao final, torna-se turbilhão. Palavras, sentimentos, ações. Tudo substantivado. Viram letrinhas a voar. Até que planam, planam, penas. Deitam na folha do caderno e começam a se escrever sozinhas. A ideia surge de maneira forte. Talvez se escreva sozinha. Talvez viva obsoleta.

A preguiça de levantar os dedos para alcançar a borracha vai aumentando. Riscamos. Qualquer espaço em branco daquela folha se alegra por ter seu 15 segundinhos de ocupação. Círculos de letras vão se formando. A linearidade já não consta. Na cabeça, porém, ela se faz sólida. Está tudo tomando um rumo. Roteiro de cinema. Incessantes contorcionismos do papel na minha mão.

Inquietude.

Aquele redigido linear vai se condensando. A campainha toca. O passarinho pia. O caderno não é escrito. A ideia corre porta afora. Era engano. Volta. Senta. Toma o lápis em suas mãos. Levanta. Vai tomar café. Bate na cabeça. Dorme. Tocam o rodapé palavras soltas, sem ponto de tornarem-se sentenças.

Aquilo tudo que, num apagar e recomeçar do computador, seria a emoção do computador e não a minha, ao morrer a tinta, a história vai se tornando verossímil mais e mais. A cada traço mais fraco da agonizante via-crúcis da caneta: cansaço; a cada letra querendo alcançar sem pudor o fim da página: pressa de não perder o raciocínio; a cada parada de ponto final, reflexão.

Encaixei todas as palavras dentro da minha sopa de letrinhas. Tornou-se sonora. Aquelas que esqueci, esqueci para sempre. Se fizeram falta, vão para um próximo texto. Se eu me lembrar.

Ponto final.

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