Um fenômeno corre sob o tapete puritano resistindo mudanças históricas, a homoafetividade nas comunidades religiosas. É significativo o sofrimento e os transtornos emocionais que machucam a alma das vítimas dessa pressão tradicional e moral, levando algumas à desespero. Jovens se obrigam precocemente, a fugir do ambiente familiar e da vivência nessas congregações procurando espaço, convívio e privacidade para “ser o que são de fato” sem o juízo moral e o escândalo de quem não vive a intensidade dessas paixões e as condenam. Outro elemento ponderável na discussão dessa realidade é que, a condição da homoafetividade independe dos padrões morais que as igrejas estabelecem ou que famílias de viés conservador imponham como regra. Existe e resiste em cada culto, acampamento, união de mocidade e grupos. Quanto mais farisaísmo, mais secreta e próspera se torna a luta e a comemoração. Resta aos contrários contraditórios a crença de que aquilo que os olhos não enxergam o coração não sente. A homossexualidade reside nos líderes religiosos, pública ou como sombra de caráter. O mais voraz e veemente pregador homofóbico disfarça um ser que lida, doentia e dificultuosamente com sua sexualidade. Jesus Cristo disse algo próxima disso em Mateus 23. Quais seriam as dificuldades de famíliase, de grupos cristãos aceitarem a homoafetividade? Primeiro, a total ausência de crescimento intelectual que os deixa enfermos da inteligência. A maioria não lê, não se instrue, não faz cursos, não abre o pensamento para campos diversos do conhecimento humano, como Psicologia Analítica, História Cultural e Antopologia. Contamos com cristãos que acreditam que a Bíblia caiu do céu, encadernada, com zíper e traduzida em português. Dos púlpitos e das editoras, são cercados pelo dogmatismo medieval e das leituras descontextualizadas das passagens bíblicas, repetidas numa transposição histórica criminosa. A homoafetividade é humana tanto quanto outras. Segundo, a formação nos seminários e nas faculdades é severamente dogmática, farisaíca e denominacional, metodologicamente com viseiras. A Bíblia é ajeitada ao gosto denominacional. A Teologia deve mostrar ao estudioso as múltiplas formas de ver os temas, a diversidade de interpretações, não somente o contexto atual mas ao longo da história daquele grupo ou do sistema cristão. É a máxima dos teólogos de que a Bíblia seja interpretada em seu sentido literal, contextual, cultural e histórico. Do Gênesis ao Apocalipse fica claro como, doutrinas e conceitos foram sendo modificados e cada passo, superando escritos e escritores anteriores. Se o curioso comparar Eclesiástes com os escritos de Paulo de Tarso observará evolução quanto superação de idéias. Os clérigos não colocam estas verdades diante do povo. Na Bíblia existem princípios eternos e dados culturais superados. Na prática, abominamos a conduta recomendada pela Bíblia, apropriada ao contexto histórico em que foi escrita, entre as quais destacamos, superioridade do homem sobre a mulher, legitimidade da escravidão, poligâmia recomendada por Deus como direito do homem, o genocídio, assassinato institucional em caso de violação de padrões morais, prática sexual com finalidade procriativa apenas, permissão do concumbinato, ojeriza à homossexualidade. A Bíblia tem visão judaica e ignora, por completo, a contribuição de outros povos da época. Assim, abramos mentes e corações, o que está em nosso meio, se vier à tona, será mais digno que a nossa hipocrisia.