No momento não me sinto muito a vontade em dizer sobre educação sem antes pensar um pouco no sujeito. Pois quando falamos em educação estamos nos referindo a educação de sujeitos e não de animais desprovidos desse tipo de epifania. A epifania do sujeito nos permite observar sua realidade objetiva na natureza.

Desde os dias idos da filosofia grega que se entende que o ser se manifesta na matéria e nela deixa suas impressões. Devo dizer que a potência que move o sujeito é a vontade. Sem a vontade nenhuma pedra sairia de seu estado de inércia. Assim entendo que a vontade é a potência prima, a primeira forma de epifania do sujeito no mundo. Não é justo de minha parte se queixar inteiramente de minha vida, pois, esta tem muitas marcas de minha vontade. Ora, se a vontade é a força primeira que me arrasta no mundo, então, meu mundo, em grande parte é constituído pela epifania de minha vontade no mundo.

O telos e o acidente convivem no mesmo sujeito e nele se expressam naturalmente. O segundo se constitui de falsos julgamentos que o sujeito faz de si e do mundo. Os olhos do sujeito julgam o mundo. Eles são os juízes da cidade. Nem sempre a razão a priori está em paz com a realidade objetiva. O mesmo podemos dizer da razão a posteriori, mesmo sendo sabedores que ela é responsável pela constituição do sujeito crítico e construtor de novos sonhos. Ora, se o sujeito tem a tendência de criar mitos, ele é um contador de histórias inveterado. Assim, se meus julgamentos são errados, minha vontade caminha em terra estrangeira e não o percebe. Sofro, inevitavelmente, os retornos de meus juízos – São meus acidentes. O telos nasce em minhas entranhas bem antes que haja em mim a consciência do sujeito que sou. A vontade principia no estado instintual do ser. Essa é uma vontade natural que não deveria se arrepender de existir. Depois que o ser caminha na terra, a sua vontade passa a ter um componente sociocultural determinante de sua existência – Essa é a vontade possível. Aqui o ser se epifaniza e se esconde do olhar dos outros.

É sabido que houve um tempo em que o ser foi considerado um ente acabado, pronto a decidir por sua eternidade. Hoje, não é justo dizer assim. O sujeito volitivo existe enquanto experimento da natureza. O sujeito é alguma coisa em si mesmo e nada pode ser fora daquilo que é. Ele é uma eterna experiência de ser. A história contada pelos homens que viveram antes de nós nos ensina que existimos como experimentos da natureza. Aquele que é sujeito se veja como uma experiência, e aprenda no mundo.

Alguém disse então, que a história, a ciência, a arte e a filosofia são epifanias do sujeito. Nenhuma delas existiria sem a vontade que move o sujeito. Todo sujeito é constituído, sobre tudo, de vontade. E esta só cessa seu trabalho no óbito do sujeito. A maior e mais digna vontade é a vontade de viver. No entanto, a vontade nascida de um juízo fosco sobre si e sobre o mundo produz a vontade de não viver. O suicídio é a vontade de autodestruição do sujeito. Ele pensou que podia implodir, que poderia, simplesmente, desaparecer do mundo das formas e ser alguma coisa viva em algum lugar. O ser sonha – O devaneio é marca explicativa do ser e atividade encefálica.

No início do século XX, os homens de entendimento disseram que o sujeito é constituído pela interação cotidiana com o meio, e que essa interação era mediada pela linguagem. O termo linguagens seria muito mais valioso para nós, pois, o encéfalo percebe o mundo mesmo que o sujeito não traduza o estímulo em linguagens vernáculas. Não podemos negar que muitas são as coisas que nos deparamos no dia a dia e que não temos nomes para todas elas. Desta forma, se somos seres-sujeito no mundo, e que o mundo nos modela cotidianamente, e que essas coisas nem sempre são conhecidas por nós, então, o sujeito é, em certo sentido, um estrangeiro dentro de si. O velho oráculo délfico aparece novamente: “Homem conheça a ti mesmo”.

A presença objetiva do sujeito no mundo está em função direta à expressão de sua vontade ou de suas vontades. A vontade, por sua vez, depende dos julgamentos que o sujeito faz no mundo. Somente os instintos – Formas viscerais de vontade, não precisam de julgamento para aparecer. Desta forma, a vontade se constitui um motor do sujeito, mas, ela não existe por si própria. A vontade do sujeito é constituída por duas naturezas, a primeira nos remete ao animal e suas funções orgânicas, a segunda a sua história socioeconômica e cultural. Sendo assim, a volição humana é tão animal quanto seu corpo e tão social quanto suas linguagens e representações do mundo.

O outro é quem diz do sujeito. É a vontade do outro que me diz de mim mesmo e da diferença que existe entre nós. Pois somente no outro consigo ver nitidamente o que sou enquanto sujeito. “Isso eu não faço!” “Ah, comigo seria diferente!” O olhar do outro empurra meus olhos para mim mesmo. E, inevitavelmente, passo pela humilhação de ser por causa do outro que é um tão ser-sujeito, tão sujeito como eu. Assim, o lugar da vontade, seu lócus maior, caso alguém pergunte, é o lócus dialógico. O homem está, enquanto sujeito, em diálogo com o outro, assim em diálogo com o mundo.

Pensar a educação sem considerar o sujeito-educando e sua condição de diálogo com o mundo é um equívoco sem precedentes. Pois, o ser-diálogo é, também, e não poderia deixar de ser, um ser político. Fazemos políticas o tempo inteiro, uma vez que o diálogo carrega nossa vontade até o outro. A vontade imperiosa, que rege sobre o outro e cria possibilidades e restrições é política. Ela nos fala do domínio do homem sobre o homem. A sociedade poderia ser descrita como a vontade da maioria sobre a vontade da unidade. O indivíduo que ousar fazer algo contra a vontade coletiva será fatalmente esmagado pelo todo.

Pensando assim, não podemos fazer educação sem considerar que o real e seus discursos são expressões de vontades humanas que ora tendem ao domínio e a hegemonia, e ora falam de rupturas e mudanças na estrutura matriz das coisas postas no mundo. Pensar educação sem ensinar o sujeito que a melhor via é o diálogo, a negociação, pois, a natureza íntima da linguagem sinaliza o jogo, a escolha, a melhor expressão, é se prender às formas e não à luz inaudita do conhecimento que liberta.

Pensar educação sem considerar a formação semiótica do sujeito social e que seu psiquismo é constituído por discursos hibridizados cheios de verdades e mentiras, de mitos e ciências, e de objetividades e quimeras, é voltar à era do silêncio quando os homens enterraram Deus com seus dogmas escabrosos. Ressuscitemos Deus, e com Ele o sujeito que fala; que diz de si, e de seu mundo, que pode dizer além dos ditos que estão na ordem do dia.

Alguém um dia disse: “Deixe seu filho longe da escola o máximo de tempo possível, pois, a escola deforma”. Eu, no entanto, digo: Não há nada dentro da escola que não haja na sociedade. Não há lugar para se colocar a criança. Exceto, no seu lócus dialógico – Seu habitat natural. Põe teu rebento para dialogar com o mundo e dele terás um sábio! Assim como o ser infantil não pediu licença para aprender a falar, o ser adulto não deveria pedir licença para se tornar um sábio, aprender a pensar.

Sim meu caro Mestre em Sociologia, este humilde pedagogo preferiu mostrar por meio desse breve ensaio que assim como o ser nasce de uma relação dialógica com o mundo, o sujeito epistêmico, também, brota pela via dialógica. Se quiseres pensar o ensinar, o educar, comecemos pela estrutura dialógica do sujeito, pela antropologia da alma humana – O homo loquem.