PEDAGOGIA DIALÓGICA

01 de Setembro de 2012 ROOSEVELT Ensaios 1943

PEDAGOGIA DIALOGICA

É muito difícil dizer algo quando se sabe que o que se diz é o dito da coletividade. A coletividade põe em nossa boca o seu dito ou as possibilidades de se dizer no contexto do que se costuma dizer. Assim como imitamos comportamentos, imitamos os ditos e os usamos sem pensar, apenas dizemos e pronto. Achamos que assim falamos algo nosso, original, no entanto é o outro quem diz por nós.

A coletividade linguística ou o fluido social linguístico é muito mais forte que minha capacidade de dizer por mim mesmo. Por isso, ao dizer preciso do socorro da comunidade, pois, é nela que sinto a logica do que digo e a aprovação do meu dito. Portanto, meu pensamento que se externa nos meus ditos é um reflexo que se projeta num gigantesco espelho, e seus contornos e formas se enquadram nos modelos da comunidade.

Contudo, o sentido do que digo pode ser meu, uma imagem que recebi pelos meios sensoriais em minha experiência no mundo. Eu a reelaborei de alguma forma dentro de meu encéfalo e a transmitir de minha forma, ou seja, como penso que sou; de acordo com a imagem que tenho de mim mesmo. Não posso negar que dizer é imaginar!

Quando temos contato com crianças que estão no período de construção de suas subjetividades, quando suas personalidades recebem os modelos socialmente aceitos, percebemos que o dito já está lá. O dito está onde estiver um homem em construção, pois, os homens inevitavelmente dizem com outros homens, por isso dizer é diálogo e os ditos são pedaços dos diálogos que construíram o que somos – sujeitos sociais linguísticos.

Não sou eu quem diz de mim, é o outro quem me diz quem sou; e os meus olhos se voltam para fora de mim e conseguem me ver no circuito da fala, no dizer ao outro e ouvi-lo dizer a mim. Assim, é o diálogo que nos faz o que somos e somos seres do diálogo imaginando o mundo.

Os animais não se agrupam com complexidade social, isso digo com muito temor de estar errado, por que eles não desenvolveram uma linguagem como a humana. Eles não se individualizam no dizer e não dizem ao mundo de si. Eles e o mundo são uma peça única.

As relações linguísticas entre os animais racionais não são simétricas. Elas externam nossa animalidade, nossa besta, nosso desejo de calar o outro para saqueá-lo ou se possível dominá-lo. Esse instinto é maior que nossa razão que nos diz que o diálogo é a fonte da civilização justa. Torna-se muito necessário para que os homens se protejam de seus irmãos o domínio dos códigos humanos presentes tanto no pensamento das pessoas como na língua que falamos. Não podemos jamais separar o pensar do falar. O primeiro não existe sem o segundo e segundo não existe sem o primeiro.

A criança na idade escolar entra em contato pela via formal com os códigos consagrados pelos homens. Elas aprendem o que as sucessivas gerações disseram usando as mais diversas formas de linguagem, sobretudo, a língua. Uma criança que não dominar a fala culta, ou a escrita formal, jamais poderá ser um sujeito completo no mundo. Ele é sujeito, ele é um ser devir que não teve acesso aos códigos que abrem os arcanos da filosofia, das ciências, do pensamento sistematizado. Será um dizente de ditos cridos e repetidos por ele como seus.

Os ditos nascem no bojo do lar. Não existe democracia no seio linguístico da família para com o infante aprendente do código. A palavra é fálica, é poder dos pais sobre os filhos – a primeira assimetria linguística da sociedade. A escola, por sua vez, é a voz do rio que nasce na família e mais uma vez rouba a fala da criança quando diz que o que diz é o que se dever crer, acreditar, portanto, pensar e dizer. O dito meu, é o de meus pais, de meus professores e infalivelmente do dito da ordem social. Uma ordem em que jamais poderei dizer tudo.

A assimetria linguística nos remete as relações desiguais entre os homens. Carece, então, que a escola supra de todas as formas possíveis meios para que o ser epistêmico apreenda sua realidade e possa re-significá-la em seu encéfalo, brincar com ela, ser um sujeito que domine as ideias a seu favor a favor de seu irmão para que ele entre em relação dialógica como entre iguais, e possa cobrar do mundo o seu pedaço.

Calar o outro é calar a mim mesmo; o outro e eu somos partes inseparáveis. O homem não sobrevive sem a sociedade e nem a sociedade sem o homem. A escola não deveria treinar mentes para tarefas objetivas apenas. A escola não deveria ser um lugar de instrumentalização do homem para reproduzir os mesmos modelos, isso é tentar parar o curso do rio, é atentar contra o devir do cosmo e do ser – o movimento do universo comprova que estamos em diálogo.

Se tudo começou com o enunciado divino “Haja luz!”, o ser divino dialogou no silêncio de suas entranhas. Não foi um monólogo, pode até parecer. O ser absoluto disse movido por sua imaginação sobre a necessidade de alguém lhe responder de algum lugar do imenso e infinito universo. O “haja” Dele para mim é o embrião de todo diálogo. Pois é nele que continuamos a imaginar e imaginamos com outros sobre o novo mundo que queremos construir. A escola que não tem compromisso com a complexidade do diálogo, não tem compromisso com o sujeito; antes seu intuito é preparar massas para reprodução de modelos, para conservação da ordem, para a continuação da desigualdade, para reposição de mão-de-obra alienada, para a manutenção da assimetria linguística. É a escola monologando pelo falso diálogo de suas grades curriculares e programas que não tiveram a palavra do povo.

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