Permitam-me os amigos dizer do homem. Procurarei ser breve para não irritar vossa razão com minhas preocupações sobre esse animal tão fabuloso e tão perigoso. Mas dizer do homem é uma imposição da natureza, uma vez que o processo evolutivo nos fez seres dizentes. E o dizer não cessa; o dizer sobre qualquer coisa é, na maioria dos casos, um dizer de forma irracional; é tão natural, agora, como foi a barbárie nos tempos idos de nossa história.

Observamos nas ruas, nas festas, nas reuniões familiares, nas expressões culturais, nas artes etc., que o homem está dizendo, o homem fala, dialoga com os outros. No entanto, nem sempre o sentido do dito por ele equivale ao dito que expressaria a verdade sobre alguma coisa ou algum fenômeno que se apresente. O dizer é um vício humano, as pessoas falam não por que sentem a necessidade de vibrar suas cordas vocais, mas por que precisam se relacionar com o outro. O homem tem uma necessidade de se socializar, de viver em intersubjetividade. Então somos seres dependentes do outro como se tivéssemos uma única alma – uma alma grupal.

A criança desde sua tenra idade apresenta seus feitos aos seus pais e aguarda deles um olhar, ou uma palavra de aprovação. A aprovação ou a reprovação vai determinar o estado de humor do infante. Isso é condicionamento, todos nós sabemos. Foi nessa época que também aprendemos que o outro, aquele pessoa que nem conheço em muitos casos, tem uma potência sobre mim. A mão do outro pesa sobre o sujeito. Os sujeitos se constroem e se destroem a depender da política estabelecida entre eles.

Foram os primeiros afagos, os primeiros mimos, as primeiras palavras, que me tornaram dependente daquele rosto que eu não sabia dizer o nome. Aprendi a priori a dizer “mãe”. Ali estava o bojo de todas as relações intersubjetivas, ali o sujeito estava sendo construído. Esse foi o momento de ouvir o dito dos pais e aprender com eles a dizer os meus ditos, ditos que refletem os anteriores. “Dona Maria, por que você come tripa?” “Como porque gosto, meus pais comiam, desde criança eu como, vou morrer comendo tripa!” A criança vibra as cordas vocais para dizer a palavra “mãe”, no entanto, levará anos para ela apreender o significado semântico desse termo.

Podemos dizer que dizemos sem saber o que dizemos. O falar é muito mais inconsciente de que a escrita. A necessidade de aquiescência ao grupo é bem maior que a preocupação de se procurar a verdade de nossas palavras. Somente o sábio procura dizer com sabedoria. O preconceito comprova isso: “Meu pai bebia cachaça e nunca teve nada, por isso eu bebo e estou bem, mas, esse povo que usa outras coisas é tudo bandido”. As coisas que o interlocutor se referiu foram as drogas. Ele acha que o álcool não é “as outras coisas” que ele se refere como más. Tudo porque o papai dizia daquele jeito. O comportamento social e o discurso do sujeito estão atrelados ao seu locus existencial, a sua história e seus mitos. Todos nós sabemos que o consumo de álcool é consumo de droga, pois, o álcool é uma droga tão letal quanto as outras; é isso que dizem a psiquiatria e a neurologia. Quem não sabe dos prejuízos à sociedade, a família e ao erário público causado pelo consumo regular de álcool? Qual o neurologista que não saiba dos malefícios que essa droga causa ao sistema nervoso central? Contudo o discurso da licitude dessa droga prevalece. Isso acontece por que temos a tendência a imitar os ditos e os comportamentos; temos a necessidade de não sermos reprovados pela maioria.

A expressão Durkheimiana “tecido social” aqui toma o nome de tela mental. O grupo constrói uma rede, uma tela que cobre o território onde ele se encontra, ali, o prestígio será fundamental para alguém poder dizer. Quem não o tem se limita a ouvir e depois repetir o que foi dito como sendo seu; como sendo algo natural. “Naquela floresta tem um monstro”. Todos do grupo tomarão esse sintagma como sendo verdadeiro assim como nossos jovens morrem para salvar a nação de seus “inimigos”.

Se a linguagem constrói o sujeito, então, os ditos sem validade empírica e racional são os maiores componentes da mente social, pois, foi com meus pais e amigos e depois na escola que aprendi sobre o mundo. E esta última, a escola, tem um discurso tão alienante quanto os demais. É na escola que aprendo que álcool não é droga, que o mundo deve ser como é, que essa ou aquela religião é legítima e outras não etc., a escola prioriza os ditos e a memória dos que tem o prestígio – As elites. O grande papel dessa instituição é engavetar cada sujeito na sua gaveta para que todos cumpram o seu papel. “Cada um de vós aceite de Deus a situação que te foi imposta. Se és escravo, escravo; se és livre, livre, pois Ele é o Deus de todos”. Foi Bourdie que viu isso ao analisar a escola pública francesa, imaginem se ele estivesse vindo para cá.

A massa reage de acordo com os ditos dominantes, e mesmo que haja subculturas, a mais forte prevalece. Ninguém se levanta sozinho contra o todo. Todas as revoluções contaram com a manipulação das massas. Assim, a ação inconsciente, o dizer inconsciente é perfeitamente natural, pois, essa é a nossa condição no mundo. Dialogamos, mas, na maioria das vezes pouco dizemos, pois, nossos ditos são os da tela que está sobre nós – a alma grupal.

Isso explica a temporalidade da lei. Há alguns anos atrás, quase dois séculos, era lícito ter escravos. Há alguns anos atrás, menos de um século, as mulheres não votavam. O adultério era crime. As leis mudam com o tempo, então, o que era errado passou a ser certo, o que era certo passou a ser errado. As leis existem para regular os comportamentos, contudo, elas também são ditos, são tão perecíveis e corruptíveis quanto os seus criadores. Então, a justiça que foi feita, passou, por força da história, para o panteão das injustiças humanas. Tola criatura do tempo que diz e depois desdiz! Esse é o homem, pode alguém confiar nele?

Observando o outro vi que os ditos são poderosos. Vi que apesar de seu vácuo, de sua insipiência ele exerce pressão sobre o outro de tal forma que eles se tornam verdadeiros e consagrados historicamente. Quem ousaria duvidar de nossa racionalidade? Quem duvidaria das ciências e das filosofias? Descartes entendeu que o recorte mínimo, e que o método mais eficaz, seria analisar parte por parte e ver as relações entre elas. Para ele a iluminação viria por via matemática. O objeto ficaria ali, recortado, seus pedaços sendo esmiuçados passo a passo até que o espírito humano enxergasse a episteme. Isso foi considerado ciência e ainda inspira a muitos pensadores e educadores. Mas, meus amigos o cadáver fala! O fenômeno se expressa e diz de si. O sujeito e o objeto epistêmico devem dialogar. E esse diálogo deve ter a via complexa – aquela que Morim chama de pensamento complexo! Todos os ditos são válidos desde que sejam tomados como ditos, como tentativas humanas. É no estudo dos ditos dos homens que encontramos as pistas para seguir seus passos. Assim, os ditos a priori, e os ditos a posteriori formarão outra rede; a rede do conhecimento mais próximo do racional. A realidade seria apresentada de forma mais nítida, bem melhor daquela de Platão que comparou o conhecimento a luz de Apolo, a luz do deus estatal. Não meus amados! Dioniso também precisa falar para que as bacantes retirem nossas mascaras e possamos nos ver como somos ou pelo menos como pensamos ser. E aí direi de mim ao mundo.