Era uma vez um lápis que se sentia solitário. Ele ficava em pé, bem quietinho, dentro de uma latinha. Ali era a sua casa. Passavam dias, semanas, meses e ele ali sem que ninguém pegasse nele. Às vezes ele pensava fazendo beicinho:
- Acho que não sirvo para nada. Ninguém me quer...
Na casa onde o lápis morava só havia gente grande e muito atarefada. Ele olhava o movimento das pessoas esperando que alguma delas se lembrasse dele. Um dia, depois de acordar, ele viu um objeto estranho bem ao lado da sua latinha. Ficou curioso. Quem seria? Não resistindo mais a curiosidade que fazia coçar a sua ponta, perguntou:
- Quem é você, meu amigo?
- Eu? Eu sou um caderno. – respondeu.
- Meu amigo, você ficará como eu, ignorado e abandonado em cima dessa mesa. Acho bom você ir saindo de fininho. Ninguém aqui quer saber de objetos como nós.
E os dias foram passando. Todas as manhãs a dona da casa pegava a latinha do lápis e o caderno, colocava-os em cima de uma cadeira, limpava a mesa com um pano e depois colocava os dois no mesmo lugar. Pobre lápis. Continuava não servindo para nada como ele pensava. O caderno fingia não ouvir as queixas do companheiro de mesa. Ficava caladinho exibindo a sua capa colorida.
Um belo dia o lápis percebeu uma agitação diferente na casa. Chamou o caderno:
- Amigo, que estará acontecendo?
- Sei não. Penso que seja alguma novidade. – respondeu o caderno.
Enquanto os dois conversavam, a dona da casa acercou-se da mesa, puxou a cadeira, sentou-se e abriu o caderno. Esticou o braço e tirou o lápis da latinha. Ele estremeceu. Nossa! Exclamou ele. Alguém se lembrou de mim! A senhora continuava com lápis na mão, parada como se estivesse pensando. O caderno, impaciente, perguntava ao lápis:
- E agora? Ela vai ou não vai usar você?
- Não sei... – respondeu o lápis enquanto a senhora coçava a cabeça com a ponta do coitadinho.
Passaram-se alguns minutos. Nada. Mais um tempinho e, de repente, a senhora começou a escrever.
“Meu querido filho.
Estou escrevendo este bilhete para lhe fazer um pedido. Venha, com a sua família, passar o natal conosco. Eu e seu pai sentimos muita saudade de você e dos meus netinhos. Venha para encher de luz e alegria a nossa casa.
Um beijo para todos.
Sua mãe.”
Quando a senhora escreveu a palavra mãe, fez com tanta força que a ponta do lápis se partiu. O caderno, observador como sempre, perguntou:
- Doeu muito, amigo?
- Não doeu nada. – respondeu fazendo uma careta.
- Agora deixou de pensar que não servimos para coisa alguma? - insistiu o caderno.
- Tá certo! Tá certo! Acho que me enganei.
A senhora chamou o marido e pedindo para ele apontar o lápis, lembrou-lhe:
- Faça uma ponta fininha porque a nossa neta vai desenhar neste caderno que eu comprei para ela.
- Ih, amigo lápis! Fazer a ponta? Essa vai doer muito... mas vale, né? Eu também fico dolorido quando arrancam as minhas folhas.
Pois é, senhor lápis, o senhor é pra lá de útil. Não se sinta solitário na sua latinha. Só aguarde o momento de ser utilizado. E lembre-se de uma coisa: o caderno não existiria se não existisse você. Os dois são úteis.

29/09/10
(histórias que contava para o meu neto)