Cansado de dormir o dia inteiro,
Numa fazenda do sertão mineiro,
Resolveu do nada o gato matreiro
Desafiar o cão tido como bagunceiro.

Foram para o meio do terreiro os dois,
Pulando por cima das cacas dos bois,
O gato pensando no que comeria depois
E o cão dizendo: "gato bobo, ora pois."

Sentaram-se cada um em uma cadeira,
Com suas violinhas feitas de madeira,
Começando o desafio com uma zueira
Que mais parecia serra de madeireira.

Para assistir a perigosa brincadeira
Veio o macaco trazendo uma bandeira,
A Coruja prateada que mora na aroeira
E Mimi, a velha gata alcoviteira.

O gato, dedilhando a desafinada viola,
Dizia que cão valente é coisa de gabola
Que ele, gato, é esperto e tudo controla
E quando ele rosna tem cão que rebola.

O cão respondeu: A mim você não enrola.
Por que disparas como tiro de pistola
Ao ouvir minha voz se descontrola
Entrando por aquela portinhola?

E foi pela noite adentro o desafio.
Todos cansados diziam ser desvario.
Quem é mais valente é papo sombrio
Essa cantilena está me dando calafrio,

Disse o macaco: não vejo benefício
Em continuar com esse desafio
Por que guardar esse ódio doentio
Que faz da alma um terreno baldio?

Abraçam-se o cão e o gato matreiro
E foi saindo o macaco todo lampeiro
Dizendo: volto feliz para o coqueiro
Pois acabei com aquele salseiro.
30/11/17
(histórias que contava para o meu neto)

Maria Hilda de Jesus Alão