Amanheceu o dia. Era outono. Os carros estacionados nas ruas estavam cobertos de sereno. As crianças, todas agasalhadas, iam para a escola fazendo algazarra e, com o dedo, escrevendo seus nomes nos carros. Era uma alegria total ver os carros com nomes de Maria, Ana, Pedrinho, Marcelo e outros que iam se derretendo à medida que o sol esquentava.

A aula começou. Na sala de Maria Rita a professora falava sobre a nova estação do ano explicando às crianças a diferença entre outono e inverno, respondendo a pergunta feita por João Carlos um aluno muito aplicado. Satisfeito com a resposta, ele perguntou se tinha alguma história sobre o sereno diferente da que ele aprendeu na aula de ciência.

- Você quer dizer história inventada, lenda, é isso? – perguntou a professora.
- Sim, senhora. Eu gosto muito de lendas. Eu até tenho um livro sobre o assunto.
- Eu sei de uma que minha avó contava sobre o sereno e que nós adorávamos ouvir.
- Conta pra gente, professora! – gritou a classe toda.
- Está bem, mas quero silêncio.

E a professora, D. Zilá, começou a narrativa.
“Contava minha avó que Jesus atravessou um grande mar de sofrimentos até ser crucificado. Maria de Nazaré, sua mãe, e todos que seguiam Cristo mergulharam numa dor incrível. Esse sofrimento não era só na Terra, o Universo também sofria vendo o Pai entregar seu divino filho para salvar a humanidade.

Anjos e santos choravam silenciosamente sentindo a dor que Cristo sentia toda vez que era agredido na cruz. As lágrimas destes seres iam se espalhando pelo Universo em forma de névoa.
O anjo Gabriel, na divina morada, vigiava a porta da sala do trono. O silêncio era total. O anjo, entreabrindo a porta da sala, viu o Pai em pé olhando pela janela para o infinito e, mesmo sem se virar, ele disse:

- Ato consumado, Gabriel.
Lágrimas santas rolaram pela face do Pai que foram se juntar às outras caídas dos olhos de anjos e santos. Vendo a imensidão da névoa que as lágrimas formaram, Ele a fez cair sobre a Terra dizendo:
- Serás chamada de Sereno e recordarás pelos milênios as lágrimas que um Pai derramou pelo seu Filho único.”

- Então professora, o sereno é a lágrima de Deus? – perguntou a menina Maria Rita.
- Pelo que diz a lenda da minha avó, sim. Toda vez que cai o sereno na madrugada a humanidade deve lembrar-se do dia que Deus chorou ao dar a vida de Jesus para nos salvar.

(história que contava para o meu neto)
Maria Hilda de Jesus Alão