Havia um homem que tinha uma horta grande com plantação de cenoura, beterraba e pepino. Todo santo dia o homem, cujo nome era João, cuidava dos legumes retirando as ervas daninhas e regando para que eles não sentissem sede.

Outras vezes ele cavava a terra, ao redor das plantas, e colocava adubo químico para fertilizar as raízes fazendo nascer cenouras, beterrabas e pepinos fortes e bonitos. Quando descobria insetos que podiam prejudicar o desenvolvimento da plantação, ele borrifava inseticida para acabar com os bichinhos. Os vizinhos comentavam sobre o agrotóxico que João colocava na horta e ele se defendia dizendo que se não fizesse isso, a praga acabava com tudo.

Foi num dia muito quente, após terminar o seu trabalho na área das cenouras, que ele parou para comer e descansar um pouco antes de continuar. Almoçou planejando o serviço que faria nas áreas das beterrabas e dos pepinos. Guardou a marmita na sacola e foi se deitar sob uma árvore frondosa. Adormeceu e sonhou. Sonhou que havia uma movimentação estranha na horta e ele foi, de mansinho, ver o que estava acontecendo. Ficou de boca aberta quando viu as cenouras, todas em pé, com um avental xadrez vermelho e branco amarrado na cintura, tendo cada uma, como braços, um galhinho verde de cada lado. Elas agitavam os bracinhos e diziam alguma coisa que ele não entendia.

As beterrabas, mais baixinhas e gordinhas, trajavam uma saia de listras verdes e brancas e também tinham galhinhos, um de cada lado. Elas batiam palmas fazendo ritmo ao que diziam as cenouras. Os pepinos, mais altos e mais gordos, vestindo macacões amarelos com alças e um grande bolso na frente, também agitavam os braços. Eles colocavam os dedinhos na boca e assoviavam alto fazendo coro com as vozes das suas amigas. João chegou mais perto e pôde ouvir:

- Abaixo o lixo químico! Queremos tratamento natural! – diziam as cenouras revoltadíssimas.

De repente uma das cenouras apontou:

- Olha ele ali, gente! E todos correram na direção de João que, em poucos minutos, se viu cercado por cenouras, beterrabas e pepinos.

- O que é que está acontecendo aqui? Vocês deviam estar nas suas covas crescendo para serem colhidos. – disse João nervoso. – Vocês são legumes, não são gente.

- Atchim... hoje é o nosso dia de protesto. Protesto contra o envenenamento dos alimentos. – disse uma cenoura espirrando depois de uma pulverização de inseticida.

- Eu não faço isso. – disse o homem.

- Não! Por acaso este adubo que você põe nas nossas raízes é o quê? E o pesticida que espalha sobre nós é, por acaso, perfume para deixar nossas folhas cheirosas? – perguntou um pepino alto e muito forte.

- Eu faço isso para o bem de todos... – respondeu João preocupado.

- Cof, cof, cof...para o nosso bem! Além de nós, você envenena indiretamente as pessoas. Elas nos comem e...coitadas...cof, cof...! – disse, tossindo, uma beterraba limpando o narizinho na barra da sainha.

- Qual a solução? Como posso plantar sem usar esses produtos? – perguntou João.

- Já ouviu falar em produto orgânico? Procure conhecer os métodos naturais...ai..ai...– disse um pepino amarelo de dor de barriga por causa do adubo químico.

Neste momento o homem acordou e na sua cabeça ainda ecoava a palavra “orgânico”. No dia seguinte ele foi falar com o pessoal da Cooperativa agrícola da sua cidade. Queria muito saber sobre o assunto. Um técnico foi visitar a horta de João e passou para ele todas as instruções para implantar o sistema orgânico de plantio. Quando os dois saíram, ouviu-se um assovio vindo lá do canto onde estavam plantados os pepinos:

- Fiiiiiiiii...meninas, agora a coisa muda! Não seremos mais envenenados.

- Graças a nós. – disseram todas as cenouras numa única voz.

E todos terminaram rindo muito. Rindo de felicidade por saber que ainda tem gente que pensa mais no semelhante do que no dinheiro.

- Pois é, crianças, não devemos comer frutas, legumes e verduras sem lavá-los corretamente. Lembrem-se que nem todos os plantadores têm a sabedoria do João e nem têm uma horta revolucionária como a dele.

(histórias que contava para o meu neto).

Maria Hilda de J. Alão