Havia, numa casa rica, uma sala ampla e muito clara para guardar os brinquedos das crianças. Tudo era arrumadinho em prateleiras e mesas distribuídas estrategicamente para que sobrasse espaço para a locomoção. Nas prateleiras ficavam as bonecas das meninas, as bolas, bonecos, carrinhos e os piões dos meninos. As mesas eram reservadas para os jogos preferidos de Mário e André, mas duas mesas eram muito especiais. Posicionadas lado a lado, elas eram de madeira, retangulares e com uma cabeça de leão entalhada em cada canto. Numa repousava um exército de quarenta orgulhosos soldadinhos de chumbo e em outra uma tribo de índios fortes esculpidos em madeira. O exército tinha um lindo visual. Farda azul, uma faixa vermelha atravessando o peito, fuzil ao ombro, botas negras com polainas brancas cobrindo a parte superior do calçado e uma bela pluma vermelha enfeitando o chapéu. Esse visual atraia os amiguinhos dos dois irmãos que só queriam brincar com os soldadinhos.
Quando a noite chegava e a casa ficava silenciosa, a sala se transformava, magicamente, em terra dos brinquedos. Bonecas, bonecos, carrinhos, bolas e piões ganhavam vida. Nas duas mesas não era diferente. Os soldadinhos se movimentavam e a tribo de índios também. Os soldadinhos faziam seus exercícios de guerra orientados por um sargento meio rabugento. Os soldadinhos de chumbo não conheciam a terra dos índios nem os índios conheciam a terra dos soldadinhos de chumbo. Foi numa noite de verão, depois que as crianças organizaram a bagunça do dia e fecharam a sala que os brinquedos ganharam vida. Os soldadinhos de chumbo saíram para explorar o mundo além do espaço onde eles ficavam enfileirados. Um cabo chefiava a expedição. Andaram muito e, de repente, avistaram um enorme abismo. O cabo gritou:
- Tropa, alto lá!
Todos pararam. O cabo designou um dos soldadinhos de chumbo para levar a notícia do descobrimento ao sargento. O sargento demorou a chegar por causa de um defeito na perna esquerda, resultado de muitas batalhas das quais participou. O sargento chegou e o cabo o levou para ver o grande abismo que, na verdade, era o espaço que separava a mesa dos soldadinhos de chumbo da mesa da tribo de índios. Diante da descoberta, o sargento fez uso de uma luneta para ver além daquele imenso e escuro vão. Ele olhou, olhou, ajustou a luneta até onde dava. A tropa estava ansiosa.
- Então, sargento, tem alguma coisa depois dessa fenda? – perguntou um dos soldados.
- Calma! Está muito escuro.
- Ajuste mais a sua luneta, sargento! – gritou o soldadinho que estava de sentinela num pequeno monte, que nada mais era que um cubo de madeira esquecido pelo menino André depois das brincadeiras.
Depois de muito ajustar a luneta, o sargento ficou parado olhando fixamente. Silêncio total. De repente o sargento gritou:
- Atenção, tropa! Existe gente do outro lado do abismo!
- Então são duas terras? – perguntou o cabo.
- Sargento, como fará para chegar até lá? – tornou a perguntar o cabo
- Precisamos descobrir quem são nossos vizinhos e, para isso, preciso elaborar um plano perfeito. – respondeu o sargento.
- E como atravessaremos esse abismo? – questionou o cabo já nervoso pensando no perigo que representava a enorme fenda.
- Estou pensando...estou pensando... – respondeu o sargento.
Depois de um tempo veio a solução.
- Vamos construir uma ponte para passar para o outro lado. – disse o sargento com defeito na perna esquerda.
- E o material para construir? Nós não temos nada! – dizia o cabo duvidando da capacidade do sargento.
- Temos, sim, cabo. Os meninos deixaram uns blocos de encaixar ao lado do quartel de papelão que montaram para nós. É só encaixar os blocos e teremos uma ponte para atravessar para o lado de lá.
Aplausos e mais aplausos da tropa com gritos de “o sargento é o maior”. E se puseram a encaixar os blocos para fazer a ponte.
Na terra dos índios a situação não era diferente. Foi numa noite de lua cheia que eles descobriram que existia gente do outro lado do abismo. Ficaram quietos por medo do desconhecido. O cacique teve a mesma ideia do sargento: atravessar o abismo para ver outro lado. Com esse pensamento ele convocou o seu mais valente guerreiro para que juntos planejassem uma forma segura de concretizar o seu desejo. Depois de muitos argumentos, o guerreiro sugeriu ao cacique:
- Vamos construir uma ponte trançada com corda.
O cacique pensou e perguntou:
- Temos corda?
- Sim – respondeu o guerreiro.
A corda, a qual se referia o guerreiro, era um pequeno rolo de barbante que um dos meninos deixava no canto da mesa para suas brincadeiras com pipas coloridas. Então o cacique e sua tribo começaram o trabalho de trançar a ponte.
Enquanto isso, na terra dos soldadinhos de chumbo, a ponte de blocos encaixáveis estava quase pronta. A ideia do sargento era invadir a terra dos índios antes de o dia amanhecer, porque sob a claridade do sol eles voltariam a serem brinquedos.
Na terra dos índios, o trabalho de trançar a ponte estava bem adiantado. Enquanto os índios trabalhavam, o cacique foi inspecionar o abismo. Ficou ali agachado olhando para o outro lado e parecendo ter encontrado a solução, ergueu-se e voltou para o meio dos seus guerreiros.
Os soldadinhos de chumbo terminaram a ponte. O sargento deu a ordem:
- Levem a ponte até o precipício!
A ordem foi cumprida. Chegaram ao abismo carregando a pesada ponte de blocos. E agora? Como fazer a ponte chegar até o outro lado? Eles não tinham pensado neste detalhe. Um soldadinho, querendo parecer esperto, disse:
- Vamos empurrar a ponte na direção da outra borda.
Na primeira tentativa, alguns blocos se soltaram e foram engolidos pelo abismo. Então o sargento mandou que refizessem a parte destruída da ponte.
Os índios terminaram a ponte e correram para o abismo. Lá chegando estenderam a ponte no chão para que o cacique visse e aprovasse o trabalho. Então o cacique deu a ordem:
- Lancem a ponte!
A parte da ponte lançada na direção da terra dos soldadinhos de chumbo encaixou-se direitinho em uma das cabeças de leão de um dos cantos da mesa. Já do lado dos índios, a ponte foi presa na cabeça de leão que o cacique chamava de totem. Estava pronta a passagem para a terra desconhecida. Tendo o cacique à frente, os índios começaram a atravessar o abismo. Chegaram a terra dos soldadinhos de chumbo. Os soldadinhos ficaram assustados com a presença daquela gente tão diferente deles. Já os índios, também assustados, falavam todos ao mesmo tempo. Depois de uns segundos, o cacique dirigiu-se ao sargento e perguntou falando o idioma dos brinquedos.
- Quem são vocês com essas roupas tão coloridas?
- Somos os valorosos soldadinhos de chumbo. – respondeu o sargento.
- Nós somos índios guerreiros e vivemos na terra que fica do outro lado do abismo. Saiba que não somos invasores, apenas curiosos em conhecer outras terras.
Os soldadinhos de chumbo, diante da sinceridade dos índios, deram-lhes as boas vindas. E naquela noite aconteceu a maior confraternização entre os soldadinhos de chumbo e a tribo de índios visitantes. Cada um mostrando os seus costumes. Os soldadinhos marchando com elegância e garbo, ao som de marchas militares, encantaram os índios. Já os índios com suas danças de evocar chuva, ao som de muitos tambores, faziam os soldadinhos arregalarem os olhos e murmurarem palavras de admiração. Bonecas e bonecos, em suas prateleiras, aplaudiam o encontro dos índios com os soldadinhos de chumbo. Entretidos com a festa, soldadinhos e índios não perceberam que o dia amanhecia e quando o sol despontou todos voltaram a sua condição de brinquedos.
Mário e André, antes de irem para a escola, entraram na sala dos brinquedos para pegarem seus piões e, ao olharem para as duas mesas, perguntaram ao mesmo tempo:
- Quem colocou os índios na mesa dos soldadinhos de chumbo?
Olhando mais atentamente, os meninos viram as bonecas, os bonecos, as bolas, os carrinhos e os piões todos fora do lugar habitual.
- O que aconteceu nesta sala, meu Deus? Tudo está fora de lugar! – perguntava Mário ao seu irmão.
Pois é, meninos, a festança foi tanta que não deu tempo de os índios voltarem para sua mesa.

(Maria Hilda de J. Alão)
07/03/13

(histórias que contava para o meu neto)