Já era à hora delas, como sempre pontuais. Aquele brilho perene que dissipava a noite precedia minha contemplação. Eram inúmeras. Cada ponto semelhante a uma donzela. Cintilavam uma dança de intensas cores, deslumbravam suas virtudes, que do desgraçado é a miséria, porém ignoravam. Uma noite realmente única.
Enquanto isso na terra dos mortais, as horas corriam para o passado e o que eu deveria escrever?Indagação que pairava uma velha mesa marrom e uma iluminaria vagabunda de meia luz. Em um cubículo tão sórdido quanto a dama que se sustenta da noite.
De qual sentimento carece sua alma? O que possivelmente o faria ler este aglomerado de idéias e apreciá-lo como eu gostaria que fizesse? Poderia escrever uma bela história de amor? Talvez e com um lindo fim e fazê-lo desejar viver feliz para sempre. Orgia-lo em obscenas palavras...? Faria algum sentido? Apetecia de inspiração enquanto notava aquela desordem.
Mas o porquê de agradar?
O relógio nunca fora tão desnecessário era ironicamente passageiro. Cada badalada sua era como se meu coração sangrasse pela impotência da minha carne.
A falha da luz de tempos em tempos, as folhas do jornal de ontem espalhadas pelo chão, riscos na parede e escritos em alguns objetos...
Ruídos do lado de fora, no frio da noite vaga em compasso com a ponta do lápis batendo na madeira produziam uma sinfonia, acompanhando meus pés que agredia o chão por me prender. Cada detalhe conspirava no desejado anônimo.
Confesso! Minhas palavras são nuas e talvez insuficientes para despertar em alguém um mínimo de inspiração que seja tanto para seus rascunhos quanto de senso para o que for necessário. Porém são sinceras assim como bela é a face do céu.
Indagações e mais indagações, começam a me importunar. O porquê de encantar? O porquê dessa tentativa frustrante de mascarar o que a face já é conhecida?