Por João Calvino

“e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8.32)

(Nota do tradutor: Este “e”, conjunção de ligação, do início da frase, une o que está sendo dito agora pelo Senhor Jesus, ao que havia afirmado no verso anterior, ou seja, que isto que agora se afirma sucede a todos aqueles que perseveram na fé até o fim, ou seja, eles conhecerão a verdade que os libertará da escravidão ao pecado e ao diabo.)

“E conhecereis a verdade”. Ele diz que os que chegaram a algum conhecimento dele conhecerão a verdadeira Verdade. Aqueles a quem Cristo se dirigiu eram ainda tão ignorantes e mal conheciam os primeiros rudimentos da fé, e, portanto, não precisamos nos surpreender que ele lhes prometa uma mais completa compreensão de sua doutrina. Mas a afirmação é geral. Por isso, qualquer progresso que qualquer um de nós tem feito no Evangelho, que ele saiba que precisa de novas adições. Esta é a recompensa que Cristo confere à sua perseverança, que ele o admite a uma maior familiaridade com ele; embora ele não faça, desta forma, nada além do que adicionar um outro dom ao primeiro, de modo que nenhum homem deve pensar que tem direito a qualquer recompensa. Pois é ele que aplica a sua Palavra em nossos corações, pelo seu Espírito, e é ele que, diariamente, afugenta de nossas mentes as nuvens da ignorância que obscurecem o brilho do Evangelho. A fim de que a verdade possa ser plenamente revelada a nós, devemos sincera e ardentemente nos esforçar para alcançá-la. É a mesma verdade invariável que Cristo ensina seus seguidores desde o início até o fim, mas sobre aqueles que foram a princípio iluminados por ele, é como se fosse com pequenas faíscas, ele a expande até que chegue a ser uma luz plena. Assim, os crentes, até que tenham sido totalmente confirmados, são em alguma medida ignorantes do que sabem; e ainda assim não é um conhecimento tão pequeno ou obscuro da fé a ponto de que não seja eficaz para a salvação.
“A verdade vos libertará”. Ele recomenda o conhecimento do Evangelho a partir do fruto que dele deriva, ou - o que é a mesma coisa - a partir de seu efeito, ou seja, que nos restaura à liberdade. Esta é uma bênção inestimável. Daí segue-se que nada é mais excelente ou desejável do que o conhecimento do Evangelho. Todos os homens sentem e reconhecem que a escravidão é um estado muito infeliz; e uma vez que o Evangelho nos livra dela, segue-se que deriva do Evangelho o tesouro de uma vida abençoada.
Temos agora de averiguar que tipo de liberdade é aqui descrito por Cristo, ou seja, que nos liberta da tirania de Satanás, do pecado e da morte espiritual. E se nós o obtivemos por meio do Evangelho, é evidente a partir disso que somos por natureza escravos do pecado. Em seguida, deve ser verificado qual é o método de nossa libertação. Porque até que sejamos governados por nossos sentidos e pela nossa disposição natural, estamos em escravidão ao pecado; mas quando o Senhor nos regenera pelo seu Espírito, também ele nos torna livres, de modo que, soltos dos laços de Satanás, de bom grado obedecemos a justiça. Mas a regeneração (novo nascimento que recebemos do Espírito Santo) procede da fé, e, portanto, é evidente que a liberdade procede do Evangelho.
Assim que nos gloriemos somente em Cristo, nosso Libertador, uma vez que somos conscientes da nossa própria escravidão. Para a razão pela qual o Evangelho deve ser reconhecido na nossa libertação é, que nos oferece Cristo para sermos libertados do jugo do pecado. Por fim, devemos observar que a liberdade tem os seus graus de acordo com a medida da fé; e Paulo, portanto, embora claramente feito livre, ainda gemia e ansiava pela perfeita liberdade, conforme ele afirma em relação a si mesmo em Romanos 7.24.

Traduzido e adaptado por Silvio Dutra.