O “façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” de Gênesis 1.26, equivale a dizer: “façamos para ser...”, e não: “façamos sendo semelhante em plenitude...”, porque, sem Cristo, não é possível ter tal imagem e semelhança, pois se diz em Romanos 8.29 que aqueles que foram conhecidos de antemão por Deus, são predestinados e chamados por Ele para serem conformes à imagem de Jesus Cristo.
É por isso que vemos logo declarado no início do livro de Gênesis, no relato do princípio da criação da humanidade, o propósito de Deus de que o homem tenha um segundo nascimento, o nascimento do Espírito Santo, de forma que se alcance a sua imagem e semelhança.
Assim, o valor da vida não consiste na abundância de bens terrenos que se possua, como nosso Senhor afirmou, porque estes não contribuem em nada para a imagem com Deus, pelo novo nascimento celestial, e pelo crescimento espiritual de glória em glória.
Deus revelou no motivo do dilúvio, pela destruição da quase totalidade da humanidade, que o ato de resistir ao Espírito Santo, pelo apego à vida natural e terrena, produz um juízo de morte, da Sua parte, sobre o homem carnal, porque este não foi criado com o propósito de viver para sempre como homem natural e terreno, mas como homem espiritual e celestial, semelhante ao próprio Deus, pois o Senhor declarou tal propósito quando criou o homem quando disse: “façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...”.
Deus é espírito. Em quê então importa ser semelhante a Ele? Obviamente no que se refere ao nosso espírito, o qual a propósito, sem Cristo, se encontra morto (separado de Deus) em delitos e em pecados. É somente pela associação espiritual, pela fé, com Cristo, que o nosso espírito pode ser revivificado, renovado e ser habilitado à comunhão com Deus.
Por isso nosso Senhor disse que quem estiver apegado à vida natural e terrena, perderá a vida celestial e espiritual, mas que todo aquele que perder tal vida terrena e natural, pela negação do ego, pelo arrependimento e conversão a Ele, achará a vida celestial e espiritual.
Foi em razão de os contemporâneos de Noé, não terem a obediência da fé que lhes tornaria amigos de Deus, e por resistirem deliberadamente ao trabalho do Espírito Santo, que é quem nos convence do pecado e que nos conduz ao arrependimento e que também nos transforma para sermos agradáveis a Deus, que o Senhor disse antes de trazer o dilúvio, o seguinte:
“Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal;” (Gen 6.3a).
O modo de vida simplesmente natural e terreno é chamado na Bíblia de carnal. Daí haver passagens na Bíblia como Is 40.6; Jo 3.6; 6.63; 8.15; Rom 7.7,18; 8.3-9, 12, 13; 9.8; 13.14; I Cor 1.26; 15.50; II Cor 1.17; 4.11; 5.16; 10.3; Gál 3.3; 5.13, 16,17; 19, 24; 6.8; Ef 2.3; Fp 3.3; Col 2.11,13; Tg 4.1; I Pe 1.24; 3.21; 4.1; II Pe 2.10; I Jo 2.16; Jd 23; nos quais há um desprezo pelo modo de vida carnal, chamado nestes textos simplesmente por carne, e uma exortação a que se crucifique e que se despoje do viver segundo a carne (natureza decaída no pecado), em prol de um viver segundo o Espírito Santo.
Estes dois modos de vida são opostos entre si, a saber, o que é relativo à nossa natureza terrena e o que é relativo ao que é espiritual, divino e celestial.
Por isso nosso Senhor disse que se as coisas às quais está apegado o nosso coração, são terrenas, então, este será o nosso tesouro, porque será precioso para nós apenas aquilo que é terreno.
Não que haja algum mal nas coisas materiais, naturais, terrenas em si mesmas, mas no pecado que se encontra arraigado em nós, e que nos leva a priorizar somente a vida natural, para que não tenhamos acesso à espiritual.
A quase totalidade da humanidade desconhece esta verdade que o homem foi criado para ser à imagem de Deus, o qual é espírito, porque realidades espirituais somente podem ser discernidas espiritualmente, ou seja, pelo novo nascimento do Espírito Santo, e pelo crescimento espiritual por um andar perseverante e constante no Espírito.
É preciso ter a visão do Espírito Santo para termos em nós a luz de Cristo.
E a tal tipo de visão, nosso Senhor chamou de “olhos bons”, e chamou de “olhos maus” à falta da referida visão de discernimento das coisas celestiais, e isto, em vez de luz, faz com que permaneçamos nas trevas (Mt 6.22,23).
Daí a necessidade de o homem ser espiritual e não carnal.
Deus não criou o homem para que este vivesse de modo individual e egoísta, mas para viver em amor, em unidade, num corpo, que é a Igreja verdadeira invisível, da qual Cristo é a cabeça.
Nosso Senhor recebeu a primazia e a honra de Deus Pai de ser o autor e consumador da fé evangélica, por meio da qual somos salvos do pecado e da condenação vindoura, e pela qual recebemos a vida eterna.
Por isso foi reservada para Cristo a honra de falar direta e claramente sobre estas realidades relativas ao novo nascimento do Espírito Santo, coisas estas que foram reveladas no Antigo Testamento, mas em figura e obscuramente, apesar de termos uma declaração quase direta e clara em Ez 36.25-27 e 37.14:

“25 Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei.
26 Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne.
27 Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.” (Ez 36.25-27)

“ Porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos estabelecerei na vossa própria terra. Então, sabereis que eu, o SENHOR, disse isto e o fiz, diz o SENHOR.” (Ez 37.14)