Eu louvo ao Senhor porque existo, quando sou, de essência, desnecessário. Eu louvo ao Senhor porque descubro que, desnecessário, passo a ser, de essência, por ser, parte da criação amada. Mas não entendo, Senhor, o sacrifício. Sou tragicamente ignorante. Como superar a Morte pela Morte? Como aderir ao Calvário e por quê? A vida, que chama Vida, é senão subir o Gólgota, meu Senhor, e não entendo por que é assim, de uma razão tão inescrutável! Por que o sofrimento, a dor do parto perene, que experimentamos nascendo sempre sob gritos e crescendo de nós mesmos? Senhor, eu louvo a Vossa Bondade e confesso minha fraqueza: por que o homem abandonou o Paraíso, em busca de si mesmo? E com o suor do rosto labuta até morrer de morte natural, natureza fracassada? Eu louvo a Vossa Sabedoria, Senhor, e peço que me faça compreender. Meu martírio é caminhar para onde não sei, mas que percebo que pereço a cada passo, onde perco o pouco que tenho: uma túnica e as sandálias! Se choro, é de péssima sensação de que nada sou. É de cansaço de andar com os pés descalços pela areia e pelas pedras do caminho empoeirado. É de louvor que choro, porque choro de fraqueza e reconheço: Sou uma criatura que procura o seu Senhor. Tantos senhores na face da terra... Mas só Vós Sois o dono verdadeiro, que cuida de suas ovelhas. E a despeito, não Fazes sofrer as criaturas. Por isso peço: Mostrai-me a sombra fresca, a água limpa, para me recompor. Por isso peço: Dai-me fé que recompõe o andante, de que no fim do caminho encontrarei me bálsamo, meu descanso. Perdoai-me, Senhor, pelo medo, pelo fracasso. Dai-me ajuda para andar após meus joelhos vacilarem. Levai-me, Guia, pelo rastro do Cordeiro. Perdoai-me o pavor, o choro aterrorizado de um pobre andarilho pela face da Terra, a indagar por quê! Só em Vós terei resposta. Quando a face obscura do meu oposto me atentar e um buraco de nada me apavorar, perdoai-me pela fraqueza indigente e dai-me a mão divina para cruzar o abismo fatal. Dai-me um sinal de perdão, a luz eterna; conduzi-me ao lado da Mulher e reconhecei, por Misericórdia - não por Justiça! - essa débil existência. Quando, Senhor, me esfacelar pelos rochedos, recolhei meus pedaços e curai minhas feridas; dai-me nova vida e fazei-me caminhar em direção ao altar da vida. Não pela minha vontade, nem pelo meu vão orgulho, Senhor, fazei-me digno, quando indigno que sou, de imolar-me sobre a pedra de Abraão; não me abandoneis como desprezada criatura. Não sacrifiqueis pomba, nem rola, nem carneiro. Não me desprezeis como indigno de morrer junto com seu Filho Amado, que por nós se ofereceu. Só assim, Bendito, alcançarei meu destino, de vos servir, e assim somente, me será dado ser o que sou: Tornar-me o nada que Vós socorreis do Fogo Eterno. Que não morra em vão, despreza criatura, Senhor da Vida e da Morte. Não pela minha vontade, mas para Vossa Glória. Nem por Vossa Necessidade, mas por minha salvação, concedei-me, por Bondade, morrer no Vosso Altar, Senhor. Não sou digno, Ó Senhor, de ver Vossa Face, mas uma só palavra de Sua Boca Santa me salvará. Por isso peço: Olhai com Misericórdia o vosso filho aflito que geme das dores da Vida e concedei-lhe morrer em Vosso Altar. Porque morrer por Vós é não morrer em vão. É despertar para a Vida Verdadeira, que todas as criaturas anseiam. É o descanso em Vossa Morada, é o que não entendo, mas meu coração ardentemente pede. Não posso querer por meu coração nesse tesouro, Senhor, mas não será pela minha vontade, que nada pode, Deus Bendito e Bondoso. Apenas imploro ao Senhor da Vida e da Morte, a Graça de morrer pela Vida, e de ser Vosso servo eternamente. Esse o meu descanso, esse o meu Réquiem, Pai. Essa a minha alegria, que Sois Vós, Senhor, que aprendi a chamar de Pai. (tentativa de interpretação do Réquiem, de Mozart)