Lembro-me das belas palavras que prometiam docilidades tépidas próprias dos amantes, provocando um número infindável de sensações sublimes, oscilantes entre a suavidade e a mordacidade próprias dos corações em que já brota a semente devastadora da paixão. O peito arfando, perco-me em devaneios e suspiros, estertores derradeiros da sanidade. Todo o tipo de sentimentos já perturbam-me os últimos pensamentos racionais, já lúgubres, enevoados pelos antagonismos advindos das confusões provocadoras de uma alma já inquieta.
A impetuosidade aliada à insensatez, inerente aos que são pungidos pelas poderosas setas de Eros, estão a governar minhas atitudes, fazendo-me obtusa e desvairada. Inconsciente e inconseqüente de minhas ações.
A lembrança do ser adorado, ora com loucura cândida, ora com lascívia, provoca-me, inquieta-me, regela e abrasa fazendo-me subir do inferno ao céu na eternidade de um instante plangente e desolador.
Faz-me falta, causa-me calafrios, arrepios cálidos, gemidos pesarosos de uma dor surda e nostálgica de um tempo que não existe e de um lugar onde nunca estive, uma companhia que há muito está longe de mim.
Estranho como a mais singela reminiscência causa-me tremores e um universo de sensações antagônicas, todavia sublimes, culminando numa idiossincrasia singular a qualquer existência já experimentada. Destarte metamorfoseando-me de tal modo que me transporto ao desconhecido e infinito mundo de utopias diversas, formado por um jardim de desejos secretos construídos no mais profundo e obscuro interior do meu ser.

*Escrito em 08 de janeiro de 2007