Estamos tão presos em nós mesmos que tememos abrir as janelas de nosso ser. Tememos o que pode surgir diante do vidro. Encerramos-nos em grades de aço oriundo da terra do medo. Aço forjado por nós mesmos, forjado para nossa prisão que carinhosamente chamamos de casa. Ora, mas quem a construiu? Eu? Você? Duvido muito! Nenhum lar é construído sozinho. Direta ou indiretamente há a participação de alguém. Nossas cadeias não são edificadas por desejo nato ao ser humano, mas porque algo maior nos impõe isso: as convenções.
Cadeias ilustres são essas em que estamos presos. Palácios de gelo que resistem ao calor da vida. Palácios em que as janelas são instrumentos de torturas, pois por meio delas vemos os mundos, mas não pisamos em seus solos, não respiramos seus ares, não comemos de suas frutas. Ah que inveja de Adão, suspiro em pensar na sua audácia ao comer a fruta que abriria novas portas. Enganado! Ele foi enganado! – alguém com certeza bradará – Não me importa! – direi eu. Adão em sua sede de vida rompeu as grades que o separava das dimensões que o rodeava. Eva, sua esposa, o desejo da vida personalizado em curvas suaves e perigosas.
São cárceres em que sufocamos os desejos e os anseios. Condenamos cada um deste a uma sentença pérfida e cruel. Que ardam os desejos nas fogueiras de gelo! Que seja enforcados os anseios da alma em cordas de convenções sociais. Quanta crueldade para com os padecentes. Nós os criamos, nós os matamos! Que triste verdade salta diante de nós. Assassinamos nossos amados, nossos filhos, a nós mesmos. Um suicídio gradual, assim, podemos definir nossa aquiescência com o que é antes de nós: com o que está imposto pelos deuses da moralidade.
A folha vai findando e ainda vejo as prisões ao meu redor. Quase todos pensando estar em um condomínio de luxo, outros sabem que seu cárcere é traiçoeiro e instável. Alguns se espelham em Adão, em seu ato de amor a si mesmo. De desejo pela chance de viver o desejo! Há quem voe nas asas dos pássaros de aço assim que quebram as correntes das duas tábuas veterotestamentária. Voam sem medo do que o espera. Nesse ser de aço alado é o mistério que o guia. A sensação de respirar um ar que não foi oferecido por deus algum, mas que sempre existiu, porém nunca foi propagado. Nessas terras que de tão perto são longínquas só uma palavra importa: viver!
Todos nós temos a chave em nossas mãos. O que nos falta afinal? Encontrar o cadeado e gerar calor suficiente para derreter o aço que forma as barras de nossa cela. Voemos então por um beijo. Por um abraço. Rasguemos os céus pelo prazer de voar...voar nos ares de um céu que espera por nós: para isto ele foi gerado! Para que façamos dele nossa rota! Pousemos nos lábios de outrem, nos braços de um estranho, nos risos de um louco!