Quantos monstros habitam a escuridão de nossa solidão? Pergunta estranha para iniciar um texto? Nem tanto, se considerarmos que o texto é tão estranho quanto à indagação inicial. A vida é feita de questionamentos, entre outras coisas, são eles que tornam a solidão em algo menos sofrível. Os psicólogos podem até discordarem de minha afirmação, mas ainda assim continuarei absoluto nesse ponto.
Não há solidão pior que o silêncio das questões. Quando enfrentamos as tormentas de um mar de lágrimas necessitamos nos indagar para prosseguirmos rumo à estrela do norte. Quando silenciamos voz que cria interrogações em nosso íntimo é sinal que o viver já não faz sentido, existimos enquanto ainda há ar em nossos pulmões. Viver vai além de respirar, quanto a isso não há duvida.
É preciso navegar nas águas turbulentas para alcançarmos as respostas que buscamos. O horizonte por mais cinzento que esteja esconde um azul esplendoroso. O que realmente importa sobre este ponto é: quantos monstros habitam na escuridão da solidão? Serão tantos quantos os que habitam nas profundezas do oceano? Talvez sim. Talvez não. Tudo depende da profundidade de nosso ser. Ou dito por outras palavras, a resposta depende da profundidade de nossos desejos.
Em momentos de solidão, quando estamos taciturnos, quando ao olhar para os lados não notamos a presença de quem daríamos nosso último bote ou colete salva-vidas, ficamos entregues à sorte, desejosos da morte. Rogamos intensamente pela presença do Leviatã. Será? Isso não é absoluto. Por vezes conversamos com a grande serpente dos mares de Jó. O medo transfigura-se. Na ausência do ser amado o ser temido é uma companhia aprazível, ou no mínimo, útil.
Não me culpe, disse que o texto seria estranho. Escrevo porque o Leviatã é um companheiro em minhas navegações. Sem suas lições não saberia jamais navegar pelas águas traiçoeiras da solidão. Minha embarcação não seria assaz segura para minha tripulação. Tripulação constituída por um só homem. Aqui está o cerne de tudo. Os monstros que habitam a solidão são monstros porque assim os vemos. Caso contrário, não morreríamos dentro de nós mesmos.
Se ignorarmos a importância do questionamento condenaremos a nós mesmos a uma “vida” de falsas certezas. Certezas que nos faz ver um monstro como um monstro, mas e Sherek? Aparentemente um ogro terrível. Mas quando tiramos as escamas de nossos olhos, as escamas dos preconceitos, dos estereótipos cristalizados percebemos que por trás desse “monstro” há uma humanidade que o transforma em um humano mais altruísta que a maioria das pessoas que nos cercam.
Hoje vejo o Sol. A noite foi dissipada. Atravessei o mar e sua tormenta por acreditar que o horizonte não é cinza, que não há só tempestades e ondas violentas nos oceanos da solidão. Ainda vivo porque acreditei no poder das “incertezas”. Ainda sou por confiar nas palavras do Leviatã.