No encontro de dois olhares habita mistérios que só podem ser desvendados pelas vítimas de Eros. Na maratona incansável em busca da realização pessoal, ( geralmente ligada às conquistas profissionais) pensar em tal encontro parece imaginação infantil, dessa forma, escrever sobre tal encontro é assumir o risco de passar como “contador de fábulas”. Mas que mal há nisso? Não foram as fábulas que nutriram nos sonhos em tempo idos de criança? Por vezes não sonhávamos em vencer o gigante do pé de feijão? Hoje é diferente?
São perguntas demais, eu sei. Mas acredito no poder da interrogação, ela nos leva há um ponto, uma exclamação ou talvez a outra interrogação, e assim nossa vida prossegue. Sentamos à frente do computador e escrevemos relatórios, projetos e avaliações, nos falta a sensibilidade e a coragem para escrevermos nossos contos de fada, nossas aventuras nas densas florestas e sobretudo, nossos amores vividos. Isso não é um manifesto contra a “grande corrida em direção ao cansaço”, o que escrevo agora é o que ainda acredito existir, sob as sombras das montanhas de concreto que surgem diante de nós há mais que egoísmo, preocupação e estresse. Há princesas e plebeus, reis e súditas, há belas e feras que se apaixonam por um olhar.
São os olhos as janelas da alma? Também, mas são eles a ponte para um mundo de rios que correm ao inverso. O encontro de dois olhares está acima das probabilidades matemáticas, das previsões climáticas e das ideologias correntes, dito por outras palavras, tal encontro surge como uma conspiração universal. Olho no olho, ambos são transportados para o mundo do outro. O tempo perde o sentido. Dia e noite caminham juntos nesta dimensão. Unidos pelo olhar e às vezes separados pela distância da fala. Tolos são em pensar que a voz superará o discurso dos olhos que teimosamente insistem em não se deixarem.
Olhos persistentes. Perspicazes. Correm o corpo sem movimentar-se. Conto de fada? Creio que não. Acaso quando o nosso corpo se faz cama não nos detemos no olhar de quem deita sobre nós à espera de conforto? Por mais insensível que alguém seja, creio que não está imune aos encontros e desencontros das janelas da alma. Não é um conto de fada que vos escrevi. É algo tão corriqueiro e belo que não prestamos a devida atenção, e depois, não sabemos por quais razões estamos deitados em nossa cama sentindo o frio com uma intensidade maior.