O Passado: um morto teimoso

15 de Junho de 2012 Gui Rhabelo Pensamentos 678

O passado é um morto teimoso. Ele insiste em clamar por vida, e nós sopramos o fôlego da existência em suas narinas todas as vezes que fazemos dele: presente. Não devemos condenar a ânsia por vida desse defunto, não. Seria hipocrisia fazê-lo. Antes de tudo devemos admitir que gostamos dos mortos, evocamos seus rostos, redesenhamos suas faces em nossas mentes quando o vento da saudade bate em nossa pele. Cantamos suas canções quando o sono foge, recitamos os poemas que ele nos legou.
Se o passado é teimoso e não aceita sua condição, como dizia o grande poeta, em muito temos parte nesse seu hábito impertinente. Nossa condição de humano nos prende a esse desejo da imortalidade, mesmo conscientes da fragilidade de nossa existência. Olhar para o ontem e trazê-lo de volta a vida é uma forma de demonstrar nossa indignação com a morte. Não apenas a morte da carne, mas a morte dos instantes. Essa última, dolorosa ao extremo. Quando estamos abraçados ao momento e fechamos os olhos para agradecer por ali estarmos não demora muito para chorarmos sua morte, basta abrirmos os olhos, e o momento se foi.
O vento que tocou o rosto, foi o mesmo que levou a alegria. A chuva que molhou a pele, foi a mesma que arrastou as paixões. Se há leis na existência, sem dúvida essa está em seu bojo: tudo nessa vida é perene. A vida não é formada por oceanos eternos, mas por rios de grande beleza e pequena longevidade. A todo momento caminhamos em direção ao cemitério para visitar nossos “mortos”. E lá, diante de seu túmulo, recitamos os encantamentos a fim de reviver mais uma vez aquele minuto... Sim, o passado é teimoso e nós o somos ao cubo

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