Trazemos em nós cargas de sentimentos que pesam nosso caminhar. É como se a cada passo dado por nós fosse feito sobre brasas. Nosso corpo não é imune a dor, ao sofrer, assim como nossa alma que não está imunizada contra a angústia. Dores lancinantes são causadas por essas brasas que ardem como o sol de verão. Somos humanos, vez em quando aspiramos pela imortalidade, desejo contido de habitar o Olímpio. Desejo que se desfaz quando percebemos que os olimpianos são tão ou mais humanos que nós. Caminhamos e sentimos que cicatrizes ainda sangram. Almejamos uma cura que não existe. Não há antídoto para o que não queremos que sare. Palavras de auto-afirmação não afirmam nada se o peito não corrobora com seus significados. O sangue que brota desta cicatriz o faz como uma rubra flor rasgando a terra árida. Sangra o peito, sangra o rosto e o espírito. Desertos que outrora foram paraísos verdejantes. O paraíso já não existe, primeiro foi inundado por águas de puro sal, lágrimas do mais divino sofrer. Depois o sol escaldante de uma realidade surreal transformou tudo em areia.
E nem mesmo os sonhos se firmam em solo tão traiçoeiro. Nossos olhos não conhecem a paz, eles não cansam de rondar as terras longínquas que ficaram para trás, restam apenas ruínas de um templo. Culto do prazer, da felicidade sem par, do imprevisto. Ainda assim, eles não descansam, acreditam que testemunharão um milagre a qualquer instante. E quem pode condená-los por isso? Ninguém. Em algum momento de nossas vidas, nós também tivemos essa sensação. Caminhamos sobre brasas hoje, amanha sobre o gelo cortante e depois sobre pedregulhos escorregadios. O hoje é uma dádiva, mas se não soubermos aproveitá-lo, que dia vil e cinéreo ele se tornará?! Para onde vamos não há mapas, apenas vamos. Com ou sem coordenadas, os sentimentos serão sempre companheiros e nossos olhos ainda que fechados, não descansarão.