Sentir-se suja é andar nas ruas, e não sentir absolutamente nada. É descaso. Sentir-se suja é saber que nada mudará, a não ser a desgraça alheia. Viver em um mundo pobre, onde ninguém é de ninguém, onde não há o pertencer, habitado por ignorantes em massa, que matam, estupram, assaltam. Viver em um mundo sem amor, compaixão, tudo isso, claro, pelo próximo, não é viver. Estar sujo é saber que nada vai mudar. Que a minoria peca por achar que mudará o mundo. Histórias em quadrinhos mentem. Não é o bem que vence. O mal sempre prevalece. Em um mundo onde a virgindade não significa nada mais para um mulher, onde casar-se e encontrar um parceiro para amar é menos importante que uma carreira promissora, onde arranjar felicidade eterna é menos importante do que o êxtase momentâneo de uma droga, isso não se codifica na palavra viver. Podre é o mundo em que vivemos. Ser-humano não mais nos define. Humanidade é a sensibilidade de ajudar uma senhora atravessar a rua, é ajudar um cego a locomover-se em uma cidade caótica, é levantar-se para dar o lugar ao idoso que já não é tão forte quanto aquele adolescente medíocre que finge dormir para não ceder a cadeira do ônibus. SER HUMANO é criar e transformar o mundo num lugar habitável. É saber que se o amanhã não chegar, fomos felizes no hoje. É amar, sem preocupar-se em ser amado, é dar sem precisar receber. É o amor ao próximo, a entrega, a paixão. É viver sem pensar que um dia morreremos. Sentir-se suja é não ter esperança no lugar onde vivo.