Esquinas citadas em tempo passado,
nomes e sobrenomes falsos, apinhados de lembranças. Há quem
saiba do que se trata, e há o mesmo "quem" que ignora o que se passa.
Estamos numa linha quase invisível entre o perfeito, e o louco. Nas esquinas escritas, descritas por mãos trêmulas, e bem certas
do que ao longo da linha se esticava sem pudor, existem algumas frases feitas,
e outras meticulosamente pensadas, e refeitas. Há lágrimas caladas,outras escancaradas, berrantes,
cheias de perguntas sem resposta.



Parece-te cansativo?



É.



Deito-me ao lado de um travesseiro
frio, num espaço exato para dois amantes de encaixes perfeitos. Embriagada, e
muito pelo cansaço da espera, e de olhos quase fechados, me entrego ao lógico.
E acordo sem saber se fui tocada, se fui beijada, sem saber que gosto tinha seu
beijo, seu cheiro nessa noite, ou na outra... Em outras.



O quarto que parece pequeno, é tão
grande agora, e não me parece mais o lugar mais desejado da casa. Nem mesmo é
adornado pelas promessas que fizemos. Nas gavetas do armário escondem-se
desejos e objetos dos mesmos, meias vermelhas-carmim, que se completam por um
minúsculo conjunto da mesma cor com delicadas e frágeis pedras brilhantes, e só
elas brilham nesse cenário. Entre ela tantas peças imaculadas, sem conhecer o
toque de mãos tão desejadas. Apenas.





Descrição:



Solidão. 



Entre a gaveta e eu, um espelho, meu
companheiro de tanto tempo, olha pra mim, e parece que sabe que precisa
continuar ali, fiel e intacto, acompanhado cada gesto meu, cada olhar calado, e
até o sorriso ensaiado depois de um longo sussurro descuidado de saudade, de
espera. A ele eu mostrei cada peça que a gaveta usa, fiz poses caras e bocas,
sensuais e fatais, e fui aprovada. Pra ele eu falei meu melhor dialogo pra você
que de fato nunca foi ouvido. Mas meu coração inquieto e repleto, não me deixa
esquecer que além do espelho de cristal (grande coisa!), tenho a companhia de
algumas migalhas de seu tempo, que me parece curto, mesclado pelas lembranças,
doces e amargas do nosso improvável amor. E as roupas velhas, esgarçadas pelo
uso, desbotadas pelo excesso de lavagens parecem completas de solidão, elas são
minha melhor performance...confortáveis e perfeitas pra se dormir sozinha.



A solidão não é só minha, está
estampada nos móveis, nas paredes, está em nossos gestos rápidos, ávidos pela
chegada do prazer. A solidão esta em nossos olhos que se cruzam, mas não se
fixam mais. Ela. A solidão está nas gavetas, fartas de sensualidade morta, que
todos os dias se vestem do melhor conjunto, de cores variadas, do vermelho carmim,
ao delicado branco, da luxuria ao angelical. Todas as cenas me parecem
loucas, ou fúteis já que ficarão ali por muito tempo, trancadas.



E mais uma vez a sensação da noite,  serão as roupas velhas, que de sumárias não tem nada. Normais, apenas confortáveis,
e perfeitas para uma dama da solidão. O espelho? Persiste aqui, platéia
freqüente da melhor atuação de tristeza, e ouvinte desse solilóquio cansado.