Era uma vez
um poema

Tão triste quanto podia
tão ele mesmo quanto não percebia

Entre os irmãos
foi alcunhado de poeminha feio

E se sentia como tal
- era feio de doer -

Todos os outros
se gabavam de serem
compostos de versos racionais
repletos de sentido - diziam eles -

O poeminha feio
era o único entre os sete irmãos
que não conseguia se compor
de versos racionais

De cara
ele admitia ser
perfeito pra imperfeições

E os outros poemas
racionais
riam-se de tamanha contradição

O irmão mais velho
- o mais racional entre os sete -
acordava dizendo:

Manhã de sol, lindo arrebol

E se sentia por ser tão racional

O poeminha feio
na mesma manhã dizia:

Que lusco-fusco versado de gorjeio

E todos riam-se da sua falta de sentido

Os setes poemas
cresceram e foram publicados
por renomados autores

Hoje
estão solidificados
nas páginas dos livros
e enjaulados nas estantes das livrarias


O poeminha feio
também cresceu
mas nunca foi publicado

Pois numa manhã verde de sol
e perfumada de orvalho
ele versou pra passarinho
criou asas e
voou...