Escureceu por aqui tão depressa, eis que apagaram todas a luzes.
Finjo te enxergar diante de mim, sumisse nos breus das tocas,
sumisse assim sumido, ademais de um conto bom.
Costuma passar tua sombra pela calçada.
Ontem mesmo apareceu pintada, sua cor negro cinza,
com o sol fazendo dia em lâmpada, papel de luz em meu quarto,
que ainda não se apagou, pois vem revirando minha cabeça,
em um sonho estreito.
Vem sempre fazendo danças, tento seguir teus compassos,
surge um nó grande no peito que se desfaz em seu mando,
ali mesmo, na calçada.
Durante as passagens e atravessadas de ruas, as calçadas mudam de cor, você
acompanha, cada vez, cada hora, camuflando.
Só o chão me interessa.
Te fito em todas as brechas, não te deixo escapar, não posso e nem devo.
Se te perco em vista, meu corpo entra em alerta,
alerta brusco, vivente a cada passo.
Não demonstro loucura, me mantenho calado e não chamo teu nome.
Todos os dias me fazendo em tua sombra, construindo uma agonia,
ali mesmo, em meios as ruas cheias de fumaça, sujeira que eu não ligo,
não importa mais.
Os ventos bateram mais forte, a noite se aproxima.
É hora de voltar ao sublime, esquecer por aqui tua sombra,
deitar e imaginar seu corpo, sua forma em cor precisa
e dormir em meio ao nada.
A noite vem caindo, vai cair, já caiu.