Águas.


Nascente, assim límpida
um fio aquoso
brilha azul ao reflexo do céu
transparente ao sabor
reluzentes na esperança
que mansa se deleita
ou rasas ou profundas
se entrega aos desvios verdes
do solo que a aquece.
Vai longe... Seu corpo se alarga.
E a vida que lá está?
Ah! Essa se entristece
os dejetos o brilho apagam
de castanho o manto se cobre
cachecol de espumas que estrangula
o que nas entranhas nasce.
Pedaços de embalagens
adornam as margens
como brincos enferrujados
e o corpo em beleza se desfaz.
A ganância, em trono majestoso,
desce a correnteza,
com suas máquinas passa afundando
e encharcando o que plantado
e fecundado por ela foi.
A água viva se faz em angústia
que era pura, que era bela
hoje, em desespero
em luta cega
num grito mudo, atordoado
desliza arrancando do seu leito
o que a ela não pertence
vai limpando e varrendo desde a nascente
fuligens arraigadas pela modernidade compulsiva.
Apenas chora em clemência
restituam
o que ela um dia foi!

Flávia Angelini.