CADAVERES

Hoje encontrei você. O horizonte estava perdido entre teus olhos. A saudade, essa cobra danada, ardia no meu peito pela moça que outrora era senhora deste coração.
Nem percebi se havia luzes na casa, e em silêncio fui ao teu encontro nas cinzas do passado.
Pois, hoje, no agora, no calor da hora; estava a menina deitada sobre seus excrementos; sua pele era pus e seu fígado era tormento.
Seus olhos eram duas azeitonas banhadas por lagrimas de conserva.
Para minha surpresa, quando eu vinha na estrada, vi o rosto de um mancebo que chorou por ti. O rapaz parecia um fugitivo apressado a descer a serra.
Ah, que triste lida de dois corações que fizeram confissões!
Ah, que saudades de tua boca mesmo tendo sido beijada por um estranho!
Ela era uma moça jovem de corpo bem talhado e fala suave; a menina que me roubou o fôlego e me levou os sonhos jazia morta naquela sala escura.
Pus-me a refletir sobre o tempo de carinho, as horas de afago, os dias e noites de felicidades, e, a peleja da falência de uma doença sem cura.
- Você não é mais o mesmo!
- Como meu amor?
- Isso que ouviste! Por favor, não comece com esse tom de pureza!
É difícil entender o coração das pessoas. É difícil antever o destino das mesmas.
Ela sumiu como sombra na noite logo depois do açoite que me deu.
Ela não deixou rastro, nem fragmentos de nada seu. Seu rumo foi sinistro; a moça, simplesmente, se foi, se escafedeu. Mas não de mim; quem sabe de si. Parece que minha pessoa para ela era como uma vela sem o mastro.
Seu cadáver inerte e fétido estava ali, bem diante destes olhos atormentados por tudo que não pode ver, ou, pelo que viu, malgrado o persistente engano da miopia.
- É só um cadáver! Todo cadáver tem uma história; tem uma prosa, e um vazio de palavras, e a ausência do ser. Todo cadáver nos lembra que somos iguais; veja, eu não sou melhor que você. Todo cadáver é quieto, manso, sossegado que nem os retratos da parede. Todo cadáver deve ser bem tratado, pois, é a última pose no mundo, entendeu? Eu entendi!
Ela estava lá e eu também. Nós estávamos lá tão juntos como sempre apesar das diferenças ou crenças.
Passamos a vida inteira em litígio, mas, naquela hora, naquela sala a demanda se cala.
O cadáver da moça necrosou, o meu também.
Os vermes nos devoraram até os ossos.
A poeira foi soprada pelo vento da rua que entrava pelas venezianas das janelas e frechas das portas.
Mas, se eu tivesse sido melhor!
Mas, se eu não tivesse dito tanta asneira!
Mas, se eu não tivesse namorado fora, e não tivesse feito tanta besteira!
Mas, se ela tivesse me perdoado!
Mas, se ela não tivesse ido embora!
Mas, e, mas; e, é, sempre, mas.
E o tempo passou...