Da boca saem as notas do canto,
Da alma o som do suspiro,
Dos olhos rola a água do pranto:
Onde estão os versos que aspiro?

Levou-os a insônia, e eu tonta não via,
Que todos já eram defuntos
Guardados em morgue de alegoria,
Estagnados e todos juntos

São fantasmas da noite quieta.
Batem janelas e portas da casa.
E o meu coração de poeta,
Munido de diáfanas asas,

Leva meus pensamentos ao espaço.
Nos meus olhos nem sinal de sono,
No rosto rugas sinalizam o cansaço,
E na mesa os papéis em abandono

Lembram brancas pombas
Sacrificadas ao deus do verso
Pela pena que depois tomba
Possuída por um prazer perverso,

De não mediar a disputa da inspiração
Com esta insônia que me domina,
Fazendo-me ambulante assombração
Na noite longa que não termina.


Maria Hilda de J. Alão