LUAR DAS VALQUÍRIAS


                        I

O que se diz das servas cavalgantes

A serviço dos deuses e dos homens

É que escolhem guerreiros para a morte

Ao se lhes surpreender com beijos gélidos.

Montam os corcéis brancos das neblinas

Que descem sobre os campos de batalha.

Enquanto isso, enluarada, a noite cai

Àqueles que s'entregam para a guerra

No espetáculo sangrento dos infantes.

Atravessam planícies que, nevadas,

Tingem-se aqui e ali de sangue nobre.

Gemidos, baforadas de vapor,

Partiam dos caídos destripados

Que, exangues, contemplavam as estrelas

À espera do Valhala e suas glórias.


                        II

Elas são as mulheres escudeiras

Que cumprem os desígnios do Destino

Elevando os espíritos dos bravos.

Alvíssimas, têm elas olhos grises

Frios como os glaciares das montanhas.

Passando por portais de gelo e fogo,

Vêm à mansão dos mortos escolhidos

A reforçar as hostes do alto Odin

Em sua guerra contra os mundos últimos

Que antecede a Nova Era d'Universo.

Possam com o seu sangue sobre a neve

Já como heróis marcharem destemidos!

Após terem n'olhar a vida e a morte,

Nunca estaquem em face de ninguém

Tampouco deixem sonhos por sonhar.

Assim seja, nos céus como na Terra.


                           III

Têm como prêmio após tantas jornadas

Os cuidados e os carinhos das donzelas

Que, pensando as feridas com unguentos

E servindo canecas de hidromel,

Curam um após outro dos desastres

Ao lhes fortalecer o amplo espírito

Como homens superiores qu'eles eram

Testados e medidos pela guerra.

As Valquírias, senhoras de dois mundos,

Vêm conduzir os grandes à grandeza.

Amantes da beleza e da coragem,

Acompanham a estrada do guerreiro

Enquanto avança sobre os inimigos,

Deixando-se mostrar ao destemido

Como se antevisão da boa morte.


                          IV

No olhar d'essa mulher iluminada

Que lhe vem ter no meio d'um entrevero,

Reconhece o chamado do mais Alto

E s'entrega ao beijo frio da morte.

Oh bem-aventurado o que recebe

A morte como amante e rega a terra

Co'o sangue de incontáveis inimigos!

Sacerdote, ele eleva-se oferenda

No altar feito na terra sob os céus

N'uma carnificina sanguinária.

Sim, por seu braço a morte sega os campos

A entulhar seus celeiros de cadáveres!

E as Valquírias com seus corvos retintos

Vêm se refestelar sob a alva lua.


Belo Horizonte - 25 09 2018