Naquela rua me recordo das pessoas sentadas nas calçadas;
Das bocas abertas, das línguas ocupadas, das vidas mal faladas.
Naquela rua havia uma mulher; uma velha senhora de ar muito pouco para poder dizer.
Sua asma a impedia, ou de noite ou de dia de fazer o que seus irmãos faziam sem o perceberem.

Naquela rua abri uma porta para viver com os homens.
Quando me viram fecharam as suas e se pudessem, a rua.
Andei pelo calçamento velho, batido por demais sofrido de suportar o peso de tanta gente.

A rua, um dia cansou, protestou, gritou a infâmia humana.
Aqui é rua de banana, de coentro, cavalo solto, peão e ninguém segura o vento.
O vento que levanta a poeira; a poeira que fere os olhos, os olhos que perdem a visão.

Um dia arranquei uma pedra da velha rua.
Ela não me disse nada.
A guardei em meu baú - uma velha e pesada peça de madeira.

A pedra foi esquecida.
Mudamo-nos.
Fomos para outra rua melhor construída.
As casas eram de lei, e as pessoas todas bem parecidas.
Não havia gente nas calçadas, nem gritos desesperados nas madrugadas.
As coisas eram muito bem arrumadas.
Tão arrumadas que o tédio tomou conta de mim.

Lembrei-me da pedra da rua velha de gente feia, e da mulher asmática.
Joguei-a ao chão limpo e bem varrido e fechei a porta atrás de mim...