Olhos cerrados na noite quente
Sinto o odor da natureza,
Um perfume exótico que vem
De litorais perdidos na lembrança.

Tenho nos pés a sensação
De pisar areia de praias misteriosas,
Na boca o gosto amargo e doce
De frutos de estranhas árvores.

O perfume voa pelo pensamento
Como gaivota entre mastros e velas
No porto da saudade onde vagalhões
Açoitam o barco solitário da vida,

Arremessando-o contra seus paredões.
Revejo o implacável redemoinho
A girar levando ao fundo
De um fundo que não tem fim

A preciosa carga de um grande amor,
Embalada em celofane de desencontros.
E bastou esse exótico perfume
Para que se abrissem as escotilhas

Libertando em delírio astral
Anjos e demônios em orgia
Para reacenderem o meu desejo
De provar mais uma vez, céu e inferno.