Bardos colossais

02 de Setembro de 2013 coyote Poesias 304

“Bardos colossais” (pág. 277), mais um poema do poeta-dentista (aquele que vive dividido entre poesias e dentes, embora advirta com veemência que sua maior paixão é a poesia, e por conseguinte, os poetas, que chama de gloriosos cometas). É um poema discursivo, dos mais inflamados que compôs, febril, durante os momentos de intenso fervor, ao estudar os poetas:
Sempre me fascinaram! E como um aluno aplicado, estudioso dos poetas, só faço resgatar a memória deles... Tirar-lhes a máscara pesada e sombria, que se lhes dão aspectos de divindades bárbaras, como nos tempos helênicos... também nos condicionam a meros expectadores, a uma pequenez extrema...
Sobrevindo-nos admiração ante a máxima grandeza.
Tal o assombro dos habitantes de Lilliput ao se depararem com o gigante...
Tal a perplexidade ante a grandiosidade de um Adamastor,
Em que o Deus-Poeta atinge o sublime!
Oxalá não fossem encarados como objetos de museu,
onde pairam solenes!
Ou venerados em seus nichos, nem mistificados
como alegóricos e inanimados totens e carrancas...
- Esse distanciamento me desagrada!
Mas recolocados na ordem do dia; falarmos sobre eles,
Como se fala de futebol pelas praças ou agremiações.
Discuti-los, descrevê-los, questioná-los, examiná-los...
Mas sem o sobrecéu que os consagra, sobranceiros.

Recitá-los em voz alta, recompô-los.
Divinizá-los até... mas com ausência da nostalgia férvida que
devotamos aos ícones, fidedignos ou mitológicos.
Como se fora seres sobrenaturais ou extraterrenos.
Ainda que pareça uma fantasia, uma insólita utopia...
Seria tão bom se os encontrássemos na rua!
Os vivos e os “mortos”. Mortos não!
Os “cometas”, que já passaram, gloriosos!
Cumprimentá-los, bater um papo agradável...
Falar amenidades... olhando em seus olhos.

Então teríamos deles um novo conceito;
de que são pessoas extraordinárias, excepcionais.
Prodigiosas, dotadas de alto valor artístico!
Divinamente inspirados, tão pecáveis e vulneráveis quanto nós.
Mas iluminados, guiados pelas mãos da Providência.
Estendidas, abençoando-os, para logo arrebatá-los de nós...

Como diria o abençoado Victor Hugo: "Pitágoras, Epicuro, Sócra-tes,
Platão, são raios de luz; mas Cristo é o pleno dia"!
Esta sábia comparação, uma vez entendida, deve ser estendida a Goethe,
Byron, Poe, Castro Alves, Camões, Tolstói, Rousseau...
e a todos eles, universalmente. Pois que são raios de luz,
porquanto Deus é o pleno dia... O sol, a refulgir-lhes frugalíssimos raios...
mas cuja luminosidade nos abrasa!

Mas que passam fugazes, tais cometas... em raios fúlgidos!
Então quando virmos a solene estátua à frente da Academia,
De Machado, altaneiro! Na postura marmórea e fria...
Ou o busto de Poe, austero e sóbrio!
Haveremos de fitá-los, contemplativos.
E antes de sermos os olhos extasiados
de menino garboso perdido numa loja de doces,
a figura vultosa se nos fará lembrar que um dia,
também foram como nós, pobres viventes.
Na voragem deste mundo que devora...
da mesma forma foram gentes.
Na compleição da fisiologia que ora chora,
no púlpito da literariedade... tão sagrada!
Da vã filosofia desta vida!

Composição de 09 de abril de 1999, inserida
no livro A Passagem dos Cometas, pág. 121.
Edir Araujo, autor dos livros A Passagem dos
Cometas, Gritos e Gemidos e Fulana (inédito).

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