FANTÁSTICO - NO VERDADEIRO SENTIDO DA PALAVRA
Este texto foi escrito por mim, em janeiro de 1985 em Goiânia.


Eis que surge o universo
Que canto no meu verso

O silêncio do nada absoluto
Reinado do vácuo inútil
da obscuridade fútil
Foi extinto pelo ato impoluto
do criador astuto
de porte resoluto

Dizem ser
Um todo poderoso
Construtor generoso
de porte varonil
transformou o grande deserto
num vasto manto azul anil,
repleto de planetas mil

Fez surgir a luz e a escuridão,
a brisa leve e o trovão,
o leão e o pecado de adão,
a solidão, cúmplice da alucinação.
inventou também
e todos dizem amem !
a formula da multiplicação,
mas para complicar
ou como compensação,
a formula da degeneração
da exterminação
controle natural da superpopulação.

sinais da transformação
enigmas em profusão.

Foi inventado o negro da noite
foi criado o negro pro açoite.
que surja o doce do mel
mas também o amargo do fel
que venha o esplendor do amor
mas haja também o furor da dor
A fartura que não dura
A tortura da ditadura
O amor, misturado com a dor !

Que surja o Beija Flor
para bailar,
pairando no ar,
mas que não saiba cantar.
Que roube da flor,
que enfeita o céu
o mel



Eis que surgiu o universo
que agora canto no meu verso,
ou no âmago do meu reverso

Não se sabe, desde quando,
essa inteligência dita suprema,
esboçou seu complicado teorema
criando essa grandeza extrema

Grande obra enigmática,
bem no estilo, pragmática
de estrelas reluzentes,
de regras naturais contundentes
com luzes e fé intermitentes
com seres vivos reticentes

Somos parte desse mistério gigante
e de um sectarismo pedante
de um sofisma vibrante
e de um misticismo estafante
ou de uma fé cega aviltante
e de uma espécie degradante.

De ambíguos amigos
no espaço perdidos,
como abutres feridos.

Somos humanos sofisticados
bem dotados,
disputando a supremacia
da ideogenia
com a agonia
de outros seres animais
ditos irracionais
provocando a inércia
dos minerais,
destruindo vegetais
e nos intitulamos racionais

Rompemos com a humildade
com o senso da coletividade
eliminamos covardemente
o instinto da solidariedade
assumimos definitivamente
a propriedade
Elegemos a prosperidade
e fazemos brotar
em nome de um deus
a indignidade
compramos a felicidade
e oramos pela eternidade.
Amém nós todos,
mas nem todos dizem amém
ou ainda aqueles que dizem,
não são ninguém


Projetamos no espaço misterioso
nossa insolente ignorância
nosso alarido estrondoso
nosso recado pomposo
duvidoso,
ganancioso,
sem qualquer substancia,
sufocado na ânsia
uma oração
que não é do fundo do coração,
ou uma reza
que é somente para quem se preza,
que se traduz como uma praga
à quem se despreza.

Somos pequeninos seres
em busca de justos prazeres
jogando na fonte da sorte
no grande palácio do esporte
a esperança que importe
na vida depois da morte

Melhor ser agnóstico,
do que ser um crente pernóstico

Melhor ter consciência
do que pedir complacência

Melhor estender a mão
do que pedir perdão.

Melhor morrer de verdade
sem a menor vaidade
sem auto-piedade

Melhor morrer para sempre
do que morrer decadente
com medo da chama ardente
embrulhado para presente
sem destino convincente
na carona de uma estrela cadente.

Melhor morrer exultante,
plantando nesse grande jardim
único palco, com inicio e fim
nossa pureza ofegante
de ignorante obstante
levando amizade sincera
que dos amigos se espera