O meu velório

22 de Janeiro de 2014 duilio duka Poesias 357

O MEU VELÓRIO
quando eu morrer
serei velado por
olhares inconformados
e olhares aliviados.

o choro de um
e o sorriso de outro
serão a síntese
de mim, morto.

o cheiro sufocante
das flores
misturado com o cheiro
ultrapassado dos suores
protegerão meu cadáver mudo
ali, inerte, assistindo a tudo.

o vem e vai dos “peritos”
querendo saber se morri
e o vai e vem dos amigos
querendo impedir d’eu partir
retratam bem o ambiente
que em vida eu vivi:

[de troca de ideias nuas e cruas.
de protestos e greve de fome.
de passeatas e lutas nas ruas.
de processos de nome e sobrenome.
de agressões das polícias
e situações de apuro.
de jornais e notícias
e opiniões do futuro
para gerações que eu não vi].
...
é chegada a hora de sair
o féretro,
e neste lugar só se vê pranto.
uns querendo homenagear
meu mérito,
outros, a perda de um amigo e tanto.

[uma das cenas que mais me marcará
é esta do último momento ali exposto.
sinto-me excessivamente sério!
é a hora de lacrar o caixão...
o carro funeral transportará
eu e o meu suor no rosto
lentamente até o cemitério...
lá receberei o adeus da separação].
...
descem-me na cova
não posso saber quem
estou preso, fechado à prova
no caixão escolhido por alguém.
...
ouço o barulho da terra
e das pétalas jogadas sobre mim,
p e r f e i t a m e n t e.
ouço o soluçar e os passos
das pessoas que se vão enfim,
m a n s a m e n t e.
ouço as vozes dos operários
e a massa de barro que cai
para me isolar de todos,
f i n a l m e n t e.
...
ouço agora, longinquamente
nesta calma e última cena
apenas o som do silêncio dos mortos,
sós e invisíveis em seus túmulos amorfos.
assim também ficarei eu, aqui, em silêncio, só eternamente.
ou, compartilhadamente neste poema...
_____________________
duilio duka de souza zanni

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Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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