Piquenique à beira do Tejo

15 de Maio de 2014 JoãoBosco Encarnação Poesias 508





Podia ter ido à
Mouraria,


ver o Tejo lá de
cima.


“Ai, como eu
queria


ver o sol brilhar
naquelas águas!”



Ou ao Castelo de São
Jorge,


ver o gatos, as
macieiras...


E a cidade, lá
embaixo,


entre os ramos de
oliveiras.



Iria de bonde,
amarelo!


Pegava na Praça do
Comércio,


assim de turistas,


passava pela Alfama.



Talvez o Chiado,


seu comércio
ruidoso,


seus cantadores
vaidosos,


seus lugares
movimentados...



Mas quis caminhar
todo o cais


até a torre de
Belém,


ver bem de perto o
Tejo,


mesmo ouvindo todos
os “ais”



da mulher a carregar
a cesta,


enquanto puxava os
cães.


“Que coisa
besta!”,


repetia em
lamentações.



“Do lado de lá é
a Almada!”,


observava ele,


para amenizar a
teimosia.


“Iremos lá,
qualquer dia!”



“A pé é que não
vou!”,


retrucava ela, e
dizia “ai”,


“Ah! Um dia vai!”,


“a pé não
vou...”



Eis que, com a
discussão,


chegam ao Padrão
dos Descobrimentos,


e, de logo ali, ao
Jardim da Torre.


“Que era perto,
não era não!”



Avenida da Índia,


Avenida Brasília...


Havia, que
maravilha!,


um passado glorioso.



Exceto quando o rei
medroso,


e pegou a família e
fugiu.


O refúgio era o
Brasil,


que, até então,
para nada serviu...



História muito
antiga,


mudemos de assunto,
minha amiga,


e olhemos essa
arquitetura,


essa nau de pedra
dura,



a precipitar-se,
imóvel,


por séculos, no rio
antigo,


mas sempre novel,


que vai dar no mar.



O Tejo vai para o
oceano,


como se mar já
fosse.


Assim os marinheiros


já com saudade içam
os panos...



E à beira do Tejo,
então,


vendo as grandes
naus saindo,


alguém dá um adeus
desapercebido,


aos que nunca mais
voltarão.



À beira do Tejo,
agora,


num gramado
sombreado,


os dois, muito
admirados,


põe-se a olhar a
torre.



“Que torre antiga,


minha amiga!


Daqui saiu Cabral,
para em abril


chegar ao Brasil!”



E dentro da sacola,
também olha:


“Oba! Sardinhas,
chouriços...”


Diz o maridinho
aguado.


“E belas
Patas-de-veado!”



“E pasteizinhos de
Belém...”


com gosto, completa
a dona.


“Muito quentes,


como convém!”



Mas, ambos,
cansados,


os pés descalços,
a doer,


logo adormecem,


a roncar e a gemer.



E os cães farejam a
bolsa


e o cheiro lhes
apetece.


Os donos adormecem,


nãos lhes custa
fuçar nas cousas.



A mochila aberta


guarda, na certa,


um tesouro tentador.


E fuçam, pois
cachorro é fuçador...



A mulher ainda
cochila


E os cães agora
também.


O atônito marido dá
um grito:


“Comeram tudo da
mochila!”



“Até os
pasteizinhos de Belém?”


“Pois que faltam
coisas!”,


diz, incrédulo, a
responder,


como se visse coisa
do além.



“Minhas
“Patas-de-veado!”


Diz a mulher ao ver


o marido apavorado.


“Estas não! Aqui
estão...”



“E como comeram
bem!


Até os pasteizinhos
de Belém,


que muito quentes,


queimam a língua da
gente!”



Disse a esposa,
apressada,


enquanto enfiava
pela goela


as belas
Patas-de-veado amarelas.


Assim, com gosto,
lambia a mão.



O marido a chutar o
cão


que, há pouco, era
seu amigão,


e a assustar a
cadela,


que punha o rabo
entre as pernas.



Até que bateu a
canela


e chamava a mulher,


gritava pra ela:


“Me acuda, está a
doer!”



“Ouça! Estão a
tocar Nelson Ned!”,


disse a esposa,
entusiasmada.


“Mas, isso não me
impede


de doer. Passe logo
a pomada...”



De repente, porém,


lá pelos lados do
convento de Belém,


vinha a música que
fazia parar o mundo


e entrar num sonho
profundo:



O que é que
você vai fazer


domingo à
tarde?
”, cantava também,


enquanto pegava a
mão da mulher


e com ela dançava
em vaivém.



Até que, tão
cansados,


sentam, pesados, na
grama,


ele já não
reclama,


e o cachorro lambe o
machucado.



Ele, que se parecia
com Saramago,


e muitas vezes era
um desaforado,


estava ali, tocado,
agora:


“Você me
namora?”,



Perguntou à mulher
querida.


“Fiquemos na grama
deitados”,


respondeu ela, e
atrevida,


beijou-o e disse:
“Meu namorado!”



Quem ia dos
Jerônimos


para a torre de
Belém,


ficava atônito


ao ver os dois se
dando bem,



aos beijos e
abraços,


com pouco caso


dos mil turistas


que lhes faziam
vista.



Até que a música
parou,


e ele novamente se
enfezou,


criou novo drama,


e do colo afastou a
dama.



Podia ser uma tarde
perfeita,


em frente à Torre
de Belém.


Mas ela, e os cães
também,


ficaram à espreita.



Estes com o rabo
entre as pernas,


ela com o coração
partido,


com muita, muita
pena


de um domingo
perdido.



Parecia aquela
mulher


que o marido
imaginou,


no muro da torre, a
sofrer,


dando adeus ao
desconhecido



que nunca viu e nem
iria mais ver.


Porque uma vez no
mar,


teria de certo
morrido,


ou resolveu não
voltar.



Afinal é isto a
saudade:


essa estranha
capacidade


de sofrer como se
perdesse


aquilo que jamais se
teve.








Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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