Patriarcado

04 de Julho de 2014 Elias Lima Prosa Poética 1576



Quem é este homem

Sem rosto

Com milhares de expressões

Que com sua opressora voz

Quer me diminuir?

Quer me calar?

Censurar-me?

Matar-me os sonhos?


Quem criou essa cultura

Que me oprime

Que me sufoca diariamente?

Que mata mulheres, gays, índios

Pobres, negros e poetas?


Por toda a minha vida

Eu tentei incessantemente

Buscar respostas para toda a minha dor

E você estava aqui

Do meu lado

Nos meus pensamentos

Me dizendo: Isso não pode!

Mas que coisa feia!


Transformarei toda a minha frustração

Toda as minhas dores e angústias

Em ódio

Ódio que me calou

Que me matou quando eu não podia me defender

Quando eu era um ser puro e frágil

Eu era apenas um bebê!

Como pode ser tão cruel?


Este homem

Que tem muitos rostos

Muitas vozes

De fato se esconde

Por detrás de nossa cultura obscura e podre

Cheia de genocídios

Cheia de ódio

Cheia de tortura às mulheres

Negros e os ‘imorais’ do gênero.


Por todo estes anos você me pisou

Mesmo quando eu já estava caído

Sangrando o meu âmago

Entorpecendo meus sonhos

Destruindo minha sanidade.


Vou fingir ser obediente

Daqui em diante

Só para te ver cair

E fuder toda a maldade que você me fez



Vou cuspir toda a merda que engoli

Quando não tinha forças para negar

Quando acreditava que o mundo

Era um lugar seguro para se respirar.


As folhas eram verdes

Até você chegar

Agora estão negras

Das cinzas de árvores queimadas

De pó de minério

Que destroem nosso planeta

Nos adoecem

Em nome do progresso que só nos afastam

Nos tornam mais doentes

Caídos em hospitais sem médicos.


Sou o seu filho bastardo

O filho que você nunca quis ter

Que negará o seu trono

E dará para o povo destruir

Queimar junto das mentiras que ouvimos

Desde que aprendemos a ouvir

E que só enxergamos quando estudamos

E lemos com a alma

O mar vermelho de sangue

De milhares de inocentes.


Você, pai

Criou um chão cheio de buracos

Para que eu pudesse cair

Parabéns! Deu certo.

Mas eu me levantei

E agora vou me vender

Como uma mercadoria podre

Como um produto fabricado vencido

Em que não há devolução

Nem reciclagem que te salve da tua desgraça.



Por milênios

Fomos fabricados

Para o sustento do teu Poder Sagrado

O homem criou Deus para castigá-los

E obedientes, servimos você fielmente.

Um belo rebanho

Guiado por pastor que nos leva ao precipício

E drogados vamos

Caminhando cheios de estigmas

Não de um Cristo que se foi por nós

Mas de um Cristo que você mesmo matou.


Alienados somos

Pelos livros que recebemos nas escolas

Pela má formação dos professores

Pelo despreparo proposital

Para que assim, haja o teu Caos

Que és teu filho mais Sagrado

Que nos destroem a subjetividade

Tornando-nos sujeitados

E não sujeitos capazes de liderar ou obter poder

Somos castrados na Educação

Desde o berço de casa

À casa da vizinha

À igreja fascista

Até os telejornais racistas e classistas.


A moral nunca houve

A ética sempre esteve perdida

O que você fez de mim não tem

E nunca terá perdão

Serei eternamente ingrato

Por todo mal que me fez

Me senti sujo, podre e imoral

Por uma natureza diversa

Que me fez

Que nos cria para a sua beleza e semelhança



E no entanto, eu fui agredido

Pisado em via pública

Chutado por homofóbicos

Que a Sagrada Igreja batiza

Todos os santos dias.


Já fui chamado de Judas

De possuído

De imoral

De má influência

Que cegaram estes olhos que me julgam

Que escurecem a visão destes que não têm nenhum estudo

Nem capacidade crítica para contestar

Muito menos questionar.

Pois nasceram para obedecer o Papai do Céu

Que faz jorrar todos os dias sangue de pobres

Que deixam morrer a pauladas e facadas

Um jovem que como eu

Que só quer viver

Que tem muitos sonhos

Para alcançar

E não morrer por simplesmente,

Existir.


Acabou o terror Senhor Feudal

Eu ditarei as minhas regras

E te farei cair

Até sangrar

Até você parar de respirar.


E quando os seus olhos estiverem gritando

Socorro! Pare!

E sua voz sufocada,

Não puder gritar o que tenho fazer Senhor

Eu te darei um lindo sorriso

E o meu último golpe

E cuspirei em sua face

Todos os traumas que vivenciei.


Cansei de teus castigos

Cansei de sangrar escondido

Cansei de andar por debaixo de suas sombras

Sem abrigo

Sem luz no espírito.


Cansei de adoecer ao sol

Que me queima com antidepressivos

E no abismo que há somente em nossas mentes

A gente grita todos os dias por dentro

Mas ninguém quer ouvir

Todos querem ser os mais belos

E os mais felizes.


Cansei de acordar na miséria

Física, psíquica e orgânica

Pois diminuídos fui

Juntos dos meus amigos

Que se iludem com promessas de um paraíso

Que não existe e nunca existiu.


Nascemos mortos

Miseravelmente humanos

E industrializados fomos

E somos vendidos a preço de banana

Aos nossos inimigos

E enlatados somos

E chegando lá

Ouvimos gargalhadas do Terceiro Mundo

E de humilhação em humilhação

Nossa imagem é vendida

Como um bando de macacos numa floresta

Que são cordiais com turistas

Para ganharem suas gorjetas

E assim vamos avançando

Na nossa iminente desgraça.


É patriarca,

A sua ambição é o nosso fim

Nossa dizimação

Nossa tristeza trágica em pontes potencialmente suicidas

A sua glória reina nos telejornais

Onde mulheres são mortas todos os dias

E negros são presos sem nenhum direito

Militantes são torturados

Para manter o silêncio dessa estrutura Igreja, Exército e
Estado.


Pai meu e de todos infelizes

Eu te odeio profundamente por tudo que me deu

Por tudo que fez por mim

Pois só assim conheci a morte desde o primeiro beijo da
minha mãe

Até o último em meu caixão parcelado em doze vezes

Para alimentar juros em seu Capital

E padecermos até na morte que nos ronda e nos cerca o tempo
inteiro.


É querido Pai,

Eu voltei

Mais forte

Triste e resistente

E nada me calará

Até ver sua morte.


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