A Morte do Poeta

12 de Julho de 2014 Elias Lima Prosa Poética 1567

Estes dias,

Tenho andado triste

Um corte foi me feito no coração

E melancolicamente,

Sinto-me totalmente inerte.


É inverno,

E os meus pensamentos pesam

Sob minha frágil mente.

Meus sentimentos,

Escurecem-se.


E em meu quarto,

Repouso.

E durmo o dia inteiro.

Os dias já não são luzes vivas

São sombras que me entristecem.


Sou um homem triste

Triste sou desde o ventre.

Lá era tudo seguro e quente

Como o sol,

Estava aquecido e protegido

Nunca corria perigo.

Eu conseguia ouvir as perturbações do mundo

Mas não os via

Então, só sentia a tristeza de minha mãe

Mas nada entendia.


Então,

De tristeza e dor, eu nasci

Vim para os Caos.

Não me lembro de ter chorado ao ser expulso do paraíso

Mas soube depois que muita coisa ruim aconteceu

Quando estava lá dentro

Aconchegado em meu perfeito abrigo.


A dor,

A tristeza,

Me fizeram.


Filho das injustiças

Eu cresci assim

A sublimar as mazelas em que em mim se apoderaram

Isso quando posso contra-atacá-las.



Tem dias, como este

Em que elas me dominam o espírito

E entorpecido de imensa dor

Em meu âmago eu sinto o castigo

E não vejo Deus

E os demônios estão comigo



E então,

Sozinho,

Eu pereço em meu quarto escuro

E sombrio.


Homem feito,

Da eterna melancolia

Eu não escapo.

Ela sabe me pegar de jeito.

E corta-me as asas

Para que, com ela



Eu fique preso as dores do mundo

Me enfraquecendo,

Tirando-me toda a vitalidade do espírito.


Então, o meu fraco coração

Sangra e palpita em minhas mãos

Escurecendo toda a minha visão.

A visão de um mundo sangrento e sujo.

Imundo.



Eu não escapo.

Eu morro junto.


Essa é uma maldição

Que eu terei de carregar até o fim dos tempos

Meus pequenos passos e eu

Rumo ao meu desconfiado destino

Carregando toda a angústia de uma alma sonhadora

Arrastando todos os dias esse eterno vazio

Que me esmaga

Que me espanca

Que me sangra,

Sem chance de uma possível estanca.


A tortura do poeta romântico é ver o mundo

Com sentimentos

Eis ai, o seu inferno

Enquanto todos veem,

Ele enxerga.



Enquanto todos vivem,

Ele morre em sua existência.


Seus versos são carregados

De lágrimas congeladas por medo

De um espírito aterrorizado

Por tudo que já viu

Desde que abriu os olhos.


Seus contos são uma súplica

Um pedido de socorro urgente

“Alguém me ame, por favor!”

“E me salve de mim mesmo!”


Poeta triste

Olhos cinzentos

Alma nublada constantemente

Carregas dores de quem nem conhece

Mas sabe que existem

E por isso consente

Com a miséria existente nessas almas

Aflitas e desesperadas

Cansadas de serem olhadas despercebidamente.


A cada rua do centro da cidade que passa

Sente o cheiro da miséria perfurando seus pulmões

E nesse descontentamento,

Se perde em ruas escuras em seu inconsciente.


Nascido de uma família carente

O poeta sente falta de amor

Carece de um abraço

De um beijo quente

Que lhe devolva a paz

E descongele seus medos persistentes.


Em seu cantinho escuro,

Onde escreves o que sentes

Ele carece de alguém que lhe ame verdadeiramente

Que lhe traga sorrisos nos dias frios

E que torne alegre os dias mais nublados em sua mente.


A morte do poeta

É a falta de amor

É o seu descontentamento constante

É a falta de um sorriso que ilumine seus olhos

Devolvendo-lhe a beleza ausente.


E em sua solidão infinita

Que o abraça diariamente

Ele só quer ouvir de alguém

Que tudo vai dar certo

Que tudo ficará bem,

Mesmo quando tem de enfrentar

Seus demônios inconscientes.



Pro poeta,

Não lhe faltam momentos

Em que se sente um vira-latas perebento

Abandonado nas ruas imundas deste  mundo

Rejeitado por todos

Por não se enquadrar nessa normalidade decadente.


A morte do poeta

É essa angústia latente

Dia após dia

Anos após anos

Que lhe dá sempre um nó na garganta

Escurecendo cada vez mais o seu passado

E cegando-o no presente.


A morte do poeta é existir

E não saber enxergar sem sentir

Em seu sentimentalismo

Ele mesmo cai

Desesperadamente.


E no abismo de si mesmo

Ele se perde.

Reaparece

E quase sem força alguma

Acredita que há na vida

Alguma razão para tudo isso

Para todo esse tormento

Que o derruba

Que o faz cair sempre

Desde que se entende por gente.


Mas o poeta é um sonhador

E do seu destino ele não abre mão

E nem esquece.

Mesmo a sentir em sua essência

Infinitas dores em sua existência

Ele às vezes até enlouquece

Seus olhos enxergam o que ele não suporta

E em seu próprio apocalipse

Ele adoece.

Mas o que é a loucura

Para quem já saiu dela?


Sagradamente ele vive em seu mundo

Secretamente ele lastima e chora.

Quer ver a luz

Quer encontrar a saída

Mas ninguém o encontra.

Ninguém sabe o que ele sente.


O poeta nasce triste

E para isso não há cura



Pois o poeta é triste já no útero do seu sentir

No paraíso,

Ele já sentia as dores de ser mais um existente.


Afinal,

As existências de todos padecem

A do poeta,

Já foi moída, embalada no mundo

E carregada para presente.


Seus sentimentos são puros

E ingênuos



Sua personalidade,

Contraditória e paradoxal

Incoerente,

Mas ele se entende.

Os outros não.


Porém,

Nos versos ele se dispa de tudo

Que o limita nessa sociedade excludente

De uma cultura sombria e absurda.



Ele é intenso em seus versos

Como as dores que sente.

E quando termina o seu versejar

Ele ressuscita

Como quem estava morto de tanta angústia pesada

Como se estivesse sido jogado às ruínas do mundo

Como quem foi arrancado de seu sono profundo

E acordado, assustado

Depois de mais uma crise depressiva

Em que deliras incessantemente

Ele enxerga uma ponta de luz fraquinha

E pensa:



Óh, Deus!

Que vida triste...


Ele então,

Juntamente de suas cinzas

Cria seus versos

De sua morte existencial

Ele escreve,



Para afastar temporariamente,

A sua melancolia.


Óh!...

Pobre coitado é o
poeta...





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