Olhares vagos.
Olhos imobilizados.
Almas vazias.
Olhares cinzentos.
Tempo chuvoso.
Olhos nublados.
Sem cor.
Sem vida.
Apáticos.

Olhos que veem tudo (?)
Olhos que enxergam o mundo (?)
Olhares perdidos no tempo.
Olhos arrancados pela velocidade líquida.

A menina descalça ao lado.
O mendigo com fome.
O garoto vendendo bala no semáforo.
O corpo do negro arrastado no asfalto.

Olhos passeiam pela televisão.
Mudam de canal.
E tanto veem (?)
Mas nada sentem.

Olhos frios, congelados na solidão
Passeiam em sua própria escuridão
O sorriso é falso
A alegria é maquiada
A dor é real.

Caminhando abulicamente sem direção
Passos vazios nos levam.
À lugar nenhum.
Ou a mais profunda depressão.
Ou todos cegos estamos?

Pela crueldade civilizada
Pela barbárie noticiada
Pela indiferença contagiosa
Ou pelo individualismo virtuoso
Anestesiados estamos.
Da nossa dor.
Da dor alheia.
Que culmina em desespero.
E escurece toda luz de qualquer existência.

A violência espetacular rotineira de domingo
A guerra pela manhã no olho de vidro
O desemprego no almoço
A corrupção na janta
E o travesti morto no motel
São injeções de desânimo.

O corpo tenta se movimentar.
A alma tenta não se atormentar.
A mente se inquieta.
Mas a realidade é certa:
Nada disso vai mudar.

O outro não sou eu
E eu não sou humano.
O outro é mais um número nesse jogo da morte
Que é o passar do tempo sobre nós
Que chamamos ironicamente de vida.

Mas na propaganda diz que existe vida
E nela todos nós acreditamos
E pela decepção vamos rastejando os nossos corpos
Nossas vísceras.

Tudo é ilusão e uma grande mentira.
Tudo é falso e nada foi verdadeiro.
A crença descrente nos engana, mas no alimenta.
A verdade é o caminho, o pão e a vida.
A mentira é precipício, o resto e a morte viva.

Toda bagagem adquirida no dia a dia
Nos tornaram objetos do sistema capitalista?
Como produtos nos vendemos,
Nas esquinas das dificuldades da vida?

A virtude já foi esquecida.
A vaidade é aplaudida.
E pelo prazer vamos vivendo
Até a última gota da nossa morte líquida.

O mundo se tornou uma grande vitrine
De mercadorias baratas para um ideal
Que só existe porque todos acreditam.
E nesse eterno Caos,
Chamamos de humano:
Aquele que nos devora durante a luz do dia.

Vida e morte andam juntas.
Sempre rindo.
Sempre unidas.