A capacidade de nos comunicarmos por meio das palavras é fascinante, as palavras e os sentimentos são como matéria prima para o poeta que não as transformam em produto por meio do trabalho, mas sim em poesia através dos mergulhos feitos dentro de si.
Com maestria escreve nas pautas aquilo que está gravado no coração, aos poucos os sentimentos emergem e mostram sua face em uma folha. Poemas escritos, ditos e reescritos mas nem sempre vividos por quem declama-os em sua tentativa de conquistar a pessoa “desejada”. Arrisco-me a dizer ( consciente da possibilidade de ser vaiado e criticado duramente ) de que a mesma, a depender do poema, torna-se uma tentativa vil e covarde. Sei que as palavras são duras, mas nesse caso é necessário, pois o sujeito que declama: Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes, com o intuito de ter uma ou talvez algumas noites de amor com a princesa da masmorra a quem se destina os versos deste poema é no mínimo ridículo.
Se minha avó ainda fosse viva ela diria que tratar deste assunto é o mesmo que “pisar em ovos”, bem sei que a analogia faz todo o sentido, assim sendo quebrarei alguns sem medo de pagar a conta depois. Acredito que em uma noite possamos amar uma pessoa como nunca amamos ninguém antes, pois não acredito que o amor use relógio. Entretanto dizer:

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
(Soneto de Fidelidade – Vinicius de Moraes)

Implica em viver esse sentimento e não somente em fazer desses versos uma porção mágica para encantar ou enfeitiçar a princesa solitária. Dizer tacitamente que a ama, não amando, é sim covardia. Não concorda? Então acabei de quebrar um ovo! O amor caminha com o desejo isso é cediço, porém, o desejo não precisa do amor para caminhar. Dominar as palavras não é o mesmo que dominar o mundo e sim dominar os mundos em todas as suas esferas.
Falsear um sentimento fitando a satisfação de meros desejos ao meu ver é inadmissível. Versei sobre as palavras e seu fascínio, todavia há coisas que nem as palavras são capazes de descrever, pois elas dizem o indizível. Traz consigo aquilo que está na alma, isso quando não traz à tona a própria alma. Quando sofremos de um mal considerado por algumas pessoas como o pior de todos os males, amar e não ser amado, ou assim que nos decepcionamos e nos deparamos com a sensação de estarmos presos em nós mesmos vivendo um eterno inverno, circunstâncias como essas faz emanar de nós o que julgo ser nosso grande tesouro: as lágrimas.
Quão preciosas são. Mais que um líquido, dizem mais que os poemas. Pois no silêncio da noite o seu som ao tocar nosso rosto soa como uma canção triste, evocando o último tocar do clarim. Contemplar o curto trajeto feito por elas em nossa face por vezes é tão doloroso quanto o caminho que antecedeu o atual momento de solidão, tristeza e/ou decepção. As lágrimas não exclusivamente sinônimos de agonia mas também de felicidade, o choro pode e é amiúde sinal de que uma pessoa está contente com algo. Afirmar que trágico não é o senhor das lágrimas nos leva a seguinte indagação: elas estão sob o senhorio de alguém ou de alguma coisa? Por mais que tentemos evitá-las não logramos sucesso, pois se elas não molham nossa face logo encontram um outro caminho para expressar o que sente nossa alma. Mas quais veredas são essas? São trilhas que julgamos conhecer e não as conhecemos de fato, quando impedimos nossas lágrimas de prosseguirem em seu curso normal assim como um rio que anseia pelo mar, somos surpreendidos por sua força, pois elas retornam ao seu habitat e rasgam nosso peito nos revelando nosso egoísmo e tirania. Negamos então a liberdade as lágrimas, as represamos, sob o risco de em um determinado momento vermos as águas dessa represa salgada se rebelarem contra as paredes que aprisionam nosso tesouro, e nada poderemos fazer frente à fúria das águas que envolvem nossa alma.
Mas sinto que divaguei em minhas palavras, entretanto não sou poeta também não possuo a habilidade dos sofistas, todavia entendo que as lágrimas dizem aquilo que não sabemos como dizer, elas são a mais pura expressão de tudo o que sentimos, o que não significa dizer que isso seja uma constante ou regra geral, afinal há quem simule e faça brotar água de seus olhos. O que prova que confiar no discurso do homem é tão duvidoso quanto crer em seu choro, mas isso não faz da desconfiança uma doutrina salvadora, pois a mesma fará de nós seres introspectivos ao extremo, enquanto confiar surge como uma virtude, virtude de quem não teme viver.