Hoje o dia está em tom de cinza. Essa cor que não demonstra vida tampouco indica a morte. Assim está o dia. Sem vibração, sem sorrisos, sem lágrimas. Apenas um dia. Não é o tédio que habita em seu seio. Vejo ao longe um navio a naufragar, que belo nome ele tem: Esperança. Sua tripulação tenta em vão salvar-se do desastre, tripulação formada por sonhos e anseios.
Vejo seus braços baterem violentamente nas duras águas deste oceano que leva o nome de Realidade. Em dias cinzentos como o de hoje só a desgraça salta aos olhos como espetáculo. O navio que afunda é o meu, o seu, o nosso navio. O sol perdeu seu brilho? Não. Ele está cansado. Exausto de iluminar os dias e não ter quem reconheça suas fraquezas. Cansado de ouvir os clamores das pessoas a fim antecipar a chegada da noite, moradia dos enamorados.
Ah esse cinza! Inspira neutralidade e a utópica imparcialidade. Sensação de impotência diante desta situação. Sentado neste banco não consigo fazer o tempo avançar. Caminhando pelas ruas da cidade em um dia assim é improvável que eu encontre pessoas, gente e mais gente surgem em minha frente. Nada de pessoas. Já não ouço os pássaros. São mudas as ondas do mar. Isso prolonga meu estado de agonia. Suspiro... Não me resta mais nada a fazer.
Esperarei por uma nova aquarela. Creio que a encontrarei na aurora. Até lá ficarei aqui, vendo o ultimo dos sonhos perder seu fôlego e submergir na escuridão do real. Assim como o sol, indiferente a minha agonia, displicente serei com o naufrágio e a carga do Esperança, que belo navio, que triste fim. Quero que esse dia acabe e assim poderei ao menos resgatar os corpos amanhã, sob a luz do sol e envolto num dia de cores vívidas.