O Velho e o MarO velho olhou o mar e seu coração se encheu de melancolia. As vagas lhe separaram do mundo esses anos todos. Sua família sempre esteve lá, além dos colossos de correntes marítimas que se digladiavam dia e noite em épicas batalhas, invisíveis aos olhos humanos, mas que seduziram anjos e outras criaturas no desenrolar das eras. Os elementais deviam fazer seu trabalho, fazer a água circular por todo o globo, e, enquanto uns traziam o calor das águas quentes e a esperança do florescer dos trópicos, outros, além do véu da nossa vida ordinária, buscavam levar o frio cortante para o coração de todas as criaturas vivas, trazendo as águas do âmago das trevas eternas abaixo dos colossos de gelo imemoriais dos polos águas cortantes para contaminar os mares.O velho olhou para o céu. As nuvens acinzentadas corriam para o horizonte, como se impulsionadas por cavalos invisíveis cujo trote ribombava pelos trezentos e sessenta graus daquele imenso tablado que se convencionou chamar de Atlântico. O mesmo céu que protegia sua família, longe das nuvens cinzentas.

O velho olhou para os contâiners atrás de si e para a proa que cortava as ondas à frente. O vento uivou por alguma fenda e ele fechou os olhos por um momento. A esperança de voltar a revê-los o fêz abrir os olhos. Alguém chamou seu nome atrás de si.


© 2014 Maurício Robe Barbosa Campos