Inação

03 de Abril de 2014 Elias Lima Prosa Poética 2156

Os pensamentos da realidade chegaram
E com eles, seus pesos
Meu coração anda se arrastando pelo chão
Mas não peço perdão e nem salvação.

Vivo de fantasias, vivo de delírios
Vivo de sonhos e principalmente
Vivo de imaginação.
Nela eu me refugio e busco o meu lugar no mundo
Um mundo que é só meu
Meu e só.
Meu e escuro.

Eu estou condenado a viver só?
Em minha existência ferida e cansada
Eu já voltei ao pó.

Mas hoje eu não estou só
Ela está em meus pensamentos
Descarregando decepção, maldade, tristeza e perversão
Ela está me causando a morte viva: a angústia.
Ela é a dolorosa e inspiradora: escuridão.

Tento lutar contra ela
Ela tenta me derrubar
E eu a ela
Enquanto eu não colocá-la para fora
Expulsar toda dor que ela me causa
Ela vencerá.

Eterna luta
Eu contra mim mesmo
Eu contra o meu ideal
Eu contra o real.

Eterno confronto
Cheio de mágoas, traumas, desilusões
De um mundo onde o sofrimento traz riqueza
Para lobos brancos de olhos azuis.

E assim caminha minha existência
Perambulando ruas vazias
Sem sentimentos
Há muitas pessoas
Para lá e para cá
Mas ninguém me deseja “bom dia”
Eu abaixo minha cabeça
Como quem sente o peso da cor das nuvens nubladas
Nubladas e carregadas de dores
Dores mortais
Dores vermelhas
Dores cinzentas.

Dentro do ônibus vejo semblantes cansados
Olhos vagando no céu
Procurando alguma solução
E até uma salvação
E por que não libertação?

Da janela olho para a rua
Enquanto o ônibus acelera com sua fúria
E vejo o rosto da injustiça
Rostos da negligência
Rostos do nosso abandono.

Meu frágil coração se dilacera
Parte-se em mil pedaços
Eu morro com cada rosto
Com cada história abandonada pelo Estado
Com cada sonho desperdiçado e sonhado em vão
Com cada alma levada pela violência institucionalizada
Com cada mãe que lava sua roupa para não deixar faltar nada em casa.

Desde criança eu carreguei um mundo
Irreal, eu não sabia
Acreditava que ele existia
A inocência me permitia.
Hoje quero mudar o mundo
Bendito e cruel desejo de criança.

E como não há lucidez que traga tal esperança
Eu me recolho com minhas asas quebradas
E sinto medo.
Assustado com tudo que vejo e enxergo
Eu só quero desaparecer.

Nesse mundo em que sou obrigado a viver
Vejo fantoches encenando os seus melhores papeis
O de não ser eles mesmos.
Suas mãos estão agarradas a preconceitos
Alimentados pela maldita ignorância controlada pelo governo.

Vejo em cena
Fantoches encenando suas vidas
E nos bastidores, sem cordas e sem comandos
Suicidam-se coletivamente em seus armários.
Todos estão doentes.
Todos estão cansados.

Mas há muito sangue para se derramar
Há muitos corpos para se enterrar
A Terra girando, não se pode parar
O dinheiro nos movimenta e nos aprisiona.

Dizemos “somos cristãos”
Mas seguimos fielmente o ideal do Capital
Dizemos “somos boas pessoas”
E pregamos o ódio, exploramos comercialmente o sofrimento alheio
E alimentamos mais preconceitos.

Abraçamos ideais suicidas que só nos deforma o espírito
Só estupram a nossa liberdade individual
Convencendo-nos que na resignação há uma premiação incerta
Obedecemos nossas instituições como crianças medrosas até o dia de nossas mortes
Destruindo toda potencialidade de nossa existência.
Que liberdade é essa?

Perseguição atrás de perseguição
Corremos uma vida de repleta de intervenções
De regras, de etiquetas, de certo, de errado
Do justo, do injusto, do bem e do mal.
Não há meio termo: não há ser humano.
Somos produtos desde que nascemos.
Somos programados para alimentar a mão-de-obra da Super Máquina de Fazer Dinheiro
E no meio do processo, nos perdemos.

Minha lucidez está por uma faísca
Como uma lâmpada velha tentando manter sua luz
Fraca, sem força, ela ainda tenta
Conscientemente em vão, ela romanticamente acredita
Embora, saiba que a derrota é a pura iminência.

Quem sabe em alguma outra existência eu encontro o meu descanso
E encontre a luz permanente
Ou quem sabe, na morte eu encontre a vida esquecida.
Por que desde que nasci o meu coração sangra
Sem esperança de uma estanca.

E assim eu vou
Tentando ilustrar a minha dor em palavras
Tentando me manter vivo em meio a pesadelos reais
Tentando manter meus frágeis sonhos em meus românticos ideais.

Então sinto que não existo
E da minha inação eu resisto
Em meio à melancolia que me esmaga o peito
Eu sobrevivo
Para dar testemunho do mundo em que eu vivo
Sem a mínima dignidade e respeito
Longe de sermos uma humanidade
Longe de termos enfim,
Algum sossego.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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