MORTE

09 de Agosto de 2011 Abreu Prosa Poética 571

Naquela maré de pouca sorte só faltava mesmo dona morte, finalmente, a me ceifar. Do nada se instalou lancinante dor e foi se irradiando por todo lado esquerdo, já amplificando um triste pensar. Pelos ainda arrepiados, olhos bem arregalados, de pronto me coloquei de pé, coração bastante acelerado, numa vontade louca de urinar. Sem tempo a perder, algo mais sério a resolver, dela logo fui me desvencilhando, quando parte do meu corpo começou a formigar. Encarei nauseabunda e negra Azrael que zangada estava e espumando de tanta raiva, berrou que eu a deixava atrapalhada e que perdia meu tempo, que me adiantasse, pois tinha outros compromissos para tratar. Quando ela já me tocava, áspera e gelada, tossi três vezes, esmurrei meu peito, dei doze passos, sai do quarto e no banheiro acendi a luz e peguei a aspirina que minha boca seca ficou a triturar. Ela ainda me seguia e mesmo com todo o formigamento, corri até a sala, peguei arisco telefone, para a emergência logo discar. Notei que ela ficava tonta e vacilante, e com dedo trêmulo e acusador, voz ainda vibrante, vociferou que nada adiantaria, que mesmo às cegas, o mundo tatearia, tentando me encontrar. Ainda cabisbaixo, disse-lhe que o dia não era bom, pois não tinha me preparado, era véspera de feriado e a programação não podia descompromissar. Morreria, que fosse noutro dia, e como já antes tinha de surpresa me visitado, disse a ela que da próxima não fugiria, que na hora certa, bem sabia, em meu quarto, todo arrumado, me encontraria, a esperar. “Mas não agora, em outra hora!” E como eu ousei escolher meu dia, ao vê-la dissipar-se, dei três contagiantes pulos de alegria, pois mais uma vez, por pura sorte, estava a morte, de novo a enganar.

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