Os heróis também sangram

24 de Abril de 2014 Elias Lima Prosa Poética 39

Acordo como quem dormiu um milênio
Fraco, pesado em suas próprias desilusões
De mentiras desconstruídas a partir dos choques com a realidade
Eu tentei fugir
Eu tentei me enganar todo o tempo
Mas não consegui.

Eu estive mentindo para mim mesmo
Numa tentativa de fugir da minha própria dor
Numa tentativa de manter intacta minha infância
Para sempre perdida
Para sempre ferida.

A morte viva é o preço
De uma condição que não se escolhe
A angústia é o peso
De uma alma atormentada por fantasmas do passado.

Meu espírito sem sossego então adoeceu
Ninguém percebeu.
Ninguém podia ouvir o grito latente em meus olhos
Todos estão cegos
Mas todos vêem
E não enxergam.

Eu tentei carregar o meu mundo delicado
Frágil em minhas pequenas mãos de criança
Eu tentei reparar os erros dos outros
E esquecendo-se de mim
Enlouqueci.

Eu não quero mais ser assim
Vivendo sempre por um fio
Até minha sanidade está se esvaindo com o doloroso tempo
Pedindo socorro, pois não suportam tamanhas feridas aqui dentro.

Em minhas obsessões
Eu vivo fazendo mais do que posso
Cobro-me mais do que consigo
Fechando-me sempre em círculos de culpa
Encarando como castigo,
Depois de tanto lutar em vão contra o passado:
O meu próprio abismo.

Eu conseguirei salvar o meu mundo?
Num mundo onde a escuridão prevalece
É ordem, é desejo, é lei, é desespero.

Então sangro-me
Porque os heróis sangram
E numa atmosfera escura dormem silenciosamente
Sem nenhuma voz
Nenhuma paz
Só tormento
E lamento.

Caímos dentro de nós mesmos
Perdendo-nos entre estes desejos insanos de curar o mundo
Curar a gente mesmo.

E neste sono profundo
Eu acordo num grito de uma criança
Chorando, pedindo socorro
Estou sem forças
Será que consigo?

Então eu fecho os meus olhos
E choro em minha melancolia
De quem se sente inerte e impotente diante de todas as dores do mundo
De todos os gritos, choros, sonhos perdidos, destinos imperfeitos
De crianças que só querem amor, paz, segurança, o calor de um abraço
Querem ser tratados como seres humanos.

Amanhece eu acordo assustado
Como quem vivenciou um pesadelo
Não, não foi um pesadelo
Foi real.
Os heróis não têm sossego.
E sem fôlego, vão vivendo
Até o seu último suspirar
Vão sangrando e permanecendo
Frágeis e fortes
Sonhadores e perturbados
Vão enlouquecendo
Neste abismo de dores profundas
Vão se esquecendo
Que a eterna criança que os mantêm vivos
Estão todas morrendo.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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