ANORMAL

14 de Agosto de 2011 Abreu Prosa Poética 644

Cheguei estafado do malfadado trabalho mais de dez da noite, pois até o horário, a dobrar, fui obrigado e nem bem o portão fechei, já arrasado fiquei ao ser informado na portaria que o prédio estava desprovido de qualquer energia. Resignado, pois ninguém sabia de resultado, subi os sofridos degraus, dezoito andares no total, em todo aquele breu, pois até o danado do celular achou por bem, no início da azarenta subida, a bateria, descarregar. Corpo encurvado, a coragem já pelos poros escapando e a cada degrau que ia galgando ficava eu resmungando, a escolher se a boca escancarava para o ar engolir, já a faltar, ou se a fechava para os fétidos cheiros os meus pulmões, não impregnar. E nesse martírio segui, muito a contragosto, e a cada virada na curva da escada expirava e aspirava raiva e desgosto, pois descobri que em grandes baldes mal fechados apodrecia todo o lixo daquele dia. E a cada andar galgado ia engolindo maus cheiros aos bafos e se em um sentia o odor desagradável de qualquer comida estragada, em outro sentia fedor de galinha depenada, para logo mais me bater com resto de feijoada misturado com olor de apodrecida salada; e o que mais me angustiava era quando sentia mau cheiro de carne deteriorada ou então em chorume pisava e era tanta podridão, que até uma “desgraça!” bem alto gritei, a estremecer toda aquela escuridão.

Uma eternidade depois, alquebrado, o calo do pé esquerdo já magoado, corpo todo ensopado, ainda anóxico, tateando um bocado, até que enfim consegui maldita porta abrir e ainda sem nada enxergar, a roupa retirei, num canto arremessei e para meu espanto, descobri terrificado que a chuveirada tão aguardada não ocorreria. “Por que você não me avisou?” esbravejei ao interfone. “A bomba, que de novo pifou; pensei que soubesse meu Senhor!” Sem qualquer opção, sem fósforo ou vela a mão, na cama me estirei, fedendo a louco fiquei, corpo mais que pegajoso, a cabeça coçando até a raiz, o chulé irritando o nariz, assoprando quilos de desprazer, o murmurejo já se perdendo na imensidão do juízo, e com a janela escancarada, a brisa mais que acomodada, o olhar perdido no quarto vagava a fixar-se no bendito ventilador, que naquela hora tardia pouco valia, cujas inertes paletas, mais pareciam, um bicho gozador. Fechei o olho e me peguei pensando em coisa boa e depois de um bom tempo senti o sono chegando e mal as pálpebras se acalmaram, ainda a me assombrar com as sombras que se mexiam por todo o quarto, ainda abominoso, a esquentar a mente de um pobre abandonado, a sofrer condenado nesse penar tenebroso.

Já ressonando, ouvi um zunido rasante, depois outro e mais outro e mais outro, e foi entrando em meu sonho para tão logo me despertar, uma fina e aguda dor e mais outra e mais outra a fazer-me coçar pescoço e orelha, a irritar-me em grunhidos, a suadeira se intensificando, num frenesi a esfregar o cobertor pelo rosto e parte do corpo, rompendo em dor alguns folículos do pescoço, o sentir já a se impacientar, carregando pela escuridão meu sossego, mais um ruído imperceptível e volto ao meu negrume de horror, o suor a descer pelo corpo, e naquele calor desconcertante fiquei desesperado a imaginar porque diabos não segurei a mão se tinha prometido nunca mais bater tão forte na mulher e nos filhos, e agora arrependido, estava sozinho e amargurado, abandonado nessa triste solidão.

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